O nome dele era Gumercindo, mas os amigos o chamavam de "Guma Terremoto". Ele era o tipo de homem que, ao tentar dar um tapinha amigável nas costas de alguém, mandava o sujeito direto para a ortopedia.
Quando Guma entrou na "Cristais & Delicadezas", a loja mais luxuosa da cidade, o ar-condicionado pareceu soluçar de pavor.
Guma estava ali para comprar um presente de bodas para a esposa. O problema é que ele tinha a envergadura de um guarda-roupa de carvalho e a graciosidade de um trator de esteira.
— Bom dia! — trovejou Guma. O som fez os pingentes de um lustre de cristal de rocha entrarem em ressonância magnética.
A vendedora, uma moça pálida chamada Silvinha, aproximou-se deslizando, como se temesse que qualquer vibração extra causasse uma catástrofe.
— Pois não, senhor. Posso ajudar? — sussurrou ela, tentando induzi-lo a baixar o volume.
— Quero algo fino! Daqueles que a gente olha e tem medo de respirar perto! — disse ele, gesticulando com braços que pareciam toras de madeira.
Nesse movimento, o cotovelo de Guma passou a milímetros de uma pirâmide de taças de champanhe. Silvinha prendeu o fôlego por tanto tempo que ficou roxa.
Guma decidiu caminhar pelo corredor central. O corredor tinha exatamente a largura de Guma, se ele prendesse a respiração. Mas Guma não prendia a respiração; ele expandia o tórax.
— Olha só essa jarra! — gritou ele, girando o corpo para a direita. A aba do seu paletó, pesada com um molho de chaves no bolso, deu um "peteleco" num cisne de vidro soprado. O cisne oscilou. Silvinha deu um salto digno de uma goleira de seleção e amparou a ave de cristal a poucos centímetros do chão.
— Cuidado, senhor! São peças de 1920! — implorou ela, suando frio.
— Bobagem, menina! Eu sou sutil. Meu apelido na escola era "Beija-flor" — mentiu ele, enquanto tentava coçar as costas e, no processo, derrubava uma pequena placa de "Não Toque" com o ombro.
O desastre final aconteceu quando Guma avistou uma fruteira de cristal tcheco no alto de uma prateleira.
— É essa! A patroa vai adorar! — Ele se esticou todo. O sapato tamanho 44 pisou em falso, e o peso de seus cem quilos deslocou o centro de gravidade da loja. Para não cair, Guma se agarrou a uma estante. A estante rangeu. Silvinha fechou os olhos e começou a rezar o "Pai Nosso".
Por um milagre físico que os cientistas ainda estudam, nada quebrou. Mas, ao tentar se recuperar, Guma soltou um espirro. Um daqueles espirros que abrem buracos na camada de ozônio.
O impacto sonoro foi tão grande que uma taça de licor na vitrine simplesmente desistiu da vida e trincou sozinha.
— Viu só? — disse Guma, limpando o nariz no lenço imenso. — Eu disse que era sutil. Nem fiz barulho ao cair!
Silvinha, tremendo, embrulhou a fruteira o mais rápido que pôde. Ela só queria que o "Beija-flor" batesse asas antes que a loja virasse areia de construção. Guma saiu balançando o pacote, batendo a porta de vidro com tanta força que o letreiro de "Aberto" caiu no chão.
Do lado de fora, Gumercindo, sutil feito um hipopótamo numa loja de cristais, sorriu consigo mesmo:
— Finesse é tudo, meu caro Gumercindo. Finesse é tudo.
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