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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles para a literatura indígena.
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Era uma noite tranquila, e a vasta biblioteca de uma cidade pequena estava envolta em um silêncio quase sagrado. As luzes suaves iluminavam as prateleiras repletas de livros, enquanto o aroma de café fresco pairava no ar da cafeteria interna. Era um local onde o tempo parecia parar, e as histórias aguardavam pacientemente para serem contadas.

Naquela noite, uma estranha energia permeava o ambiente. À medida que o relógio soava a meia-noite, três vozes ecoaram suavemente, como se tivessem sido chamadas por um poder ancestral. Sherman Alexie, Zitkala-Sa e Louise Erdrich se encontraram ao redor de uma mesa de madeira, cada um trazendo consigo um mundo de experiências e narrativas.

Sherman, com seu jeito descontraído, tomou um gole de café e abriu a conversa:

— Que prazer estar aqui com vocês! Sou Sherman Alexie, e minhas histórias frequentemente falam da vida contemporânea dos povos indígenas, entrelaçando humor e dor.

Zitkala-Sa, com sua presença forte e serena, sorriu e respondeu:

— Eu sou Zitkala-Sa. Minhas obras refletem a luta dos povos nativos, especialmente a busca por identidade cultural. O que me fascina é como as nossas lendas, em especial as de tricksters*, nos ensinam sobre resiliência e astúcia.

Louise, com seu olhar profundo e contemplativo, acrescentou:

— Sou Louise Erdrich. Em meus livros, a tradição indígena é um fio condutor. O trickster, como o famoso Raven e o Coyote, é uma figura essencial em nossas histórias. Ele nos mostra que a sabedoria pode vir das situações mais inesperadas.

Sherman, entusiasmado com o tópico, começou a explorar:

— O trickster é uma metáfora poderosa para a dualidade da vida. Ele nos ensina que a sabedoria não é apenas encontrada na conformidade, mas também na subversão das regras. Em “A Última Fala de um Lobo”, por exemplo, o trickster desafia a ordem estabelecida, revelando verdades escondidas.

Zitkala-Sa assentiu, olhando para os dois:

— Exatamente. Em minhas histórias, o trickster muitas vezes representa a luta contra a opressão. Ele é alguém que transcende as limitações impostas pela sociedade. Em “O Dia da Morte”, por exemplo, o trickster é uma figura que, ao mesmo tempo que causa caos, também traz renovação.

Louise, refletindo sobre as palavras de Zitkala-Sa, acrescentou:

— E o trickster também nos ensina sobre a fragilidade da vida. Em “A Casa do Espírito”, a presença do Coyote nos lembra que a vida é uma dança entre a criação e a destruição, entre o riso e a tristeza. Essa dualidade é a essência de nossas culturas.

Sherman, pegando um pedaço de bolo, continuou:

— O trickster é uma figura que nos faz rir de nós mesmos. Ele expõe nossas fraquezas, mas faz isso de um jeito que nos faz refletir. Em “Os Contos do Meu Pai”, eu uso o humor do trickster para abordar questões sérias sobre a identidade indígena.

Zitkala-Sa sorriu, lembrando-se de suas próprias experiências:

— O humor é uma forma poderosa de resistência. O trickster quebra as barreiras que a opressão tenta impor. Em minhas lendas, ele é muitas vezes um salvador disfarçado, que traz esperança em tempos difíceis.

Louise, agora com um brilho nos olhos, completou:

— E a beleza do trickster é que ele é universal. Mesmo fora do contexto indígena, suas lições ressoam. Ele nos mostra que, mesmo em meio ao sofrimento, sempre há espaço para a criatividade e a transformação.

À medida que a conversa avançava, as vozes dos três escritores se entrelaçavam, criando uma tapeçaria rica em significados. A cafeteria da biblioteca parecia pulsar com a energia de suas ideias, e o tempo passou sem que eles percebessem.

Sherman, olhando para as duas com gratidão, disse:

— É incrível como as histórias nos conectam. O trickster não é apenas uma figura folclórica, mas uma manifestação da luta humana. Ele nos lembra que, por trás de cada risada, pode haver uma verdade profunda.

Zitkala-Sa, com seu olhar sereno, concluiu:

— E que, em cada história que contamos, estamos perpetuando nossa cultura e identidade. O trickster é um símbolo de resistência e transformação, um reflexo da nossa força.

Louise, inspirada, finalizou:

— Que possamos sempre encontrar espaço para o trickster em nossas vidas. Ele nos ensina a abraçar a complexidade da existência, a rir de nossas falhas e a celebrar nossas vitórias.

E assim, naquela biblioteca mágica, os três escritores se uniram em um diálogo atemporal, compartilhando histórias e sabedoria, sabendo que a força de suas narrativas continuaria a ecoar através das páginas dos livros e na memória de seus leitores.

Enquanto a luz da manhã começava a iluminar a biblioteca, Sherman, Zitkala-Sa e Louise continuaram sua conversa, agora explorando outros arquétipos indígenas que mereciam destaque. As xícaras de café esvaziavam-se lentamente, mas suas mentes estavam cheias de ideias.

Sherman, inclinando-se para frente, começou:

— Além do trickster, não podemos esquecer o arquétipo do guerreiro. Em muitas culturas indígenas, o guerreiro não é apenas um lutador, mas um protetor da comunidade. Ele representa coragem, honra e sacrifício. Em “A Última Fala de um Lobo”, eu retrato guerreiros que lutam não apenas contra inimigos externos, mas também contra os demônios internos.

Zitkala-Sa acenou com a cabeça:

— Concordo. O guerreiro é muitas vezes uma figura de resistência. Em minhas histórias, as guerreiras também desempenham um papel crucial. Elas são força, sabedoria e compaixão. A figura da mulher guerreira simboliza a luta pela justiça e pela preservação da cultura.

Louise, pensativa, acrescentou:

— E essas figuras muitas vezes estão interligadas. O guerreiro e a guerreira trabalham juntos para proteger e nutrir a comunidade. Em “A Casa do Espírito”, eu exploro essa dinâmica, mostrando como a força é encontrada na união e na solidariedade.

Sherman seguiu em frente, entusiasmado:

— Outro arquétipo importante é o curandeiro. Ele representa o conhecimento ancestral e a conexão com a natureza. O curandeiro não cura apenas o corpo, mas também a alma da comunidade. Em “O Que o Rio Contou”, o curandeiro utiliza a sabedoria dos antigos para restaurar a harmonia.

Zitkala-Sa, com um olhar contemplativo, comentou:

— O curandeiro é um símbolo de esperança e renovação. Ele nos lembra da importância das tradições e da medicina natural. Em muitas lendas, o curandeiro é também um mediador entre o mundo visível e o invisível, o que traz um equilíbrio necessário.

Louise, entusiasmada, acrescentou:

— E essa conexão com a natureza é fundamental. O curandeiro nos ensina que a cura vem da terra e dos elementos. Em meus livros, frequentemente retrato essa relação íntima, mostrando como a natureza é uma fonte de sabedoria e força.

Sherman, agora refletindo sobre a conversa, mencionou:

— E não podemos esquecer o arquétipo da Mãe Terra. Ela é a fonte de vida, a nutridora. Em muitas culturas indígenas, a Terra é venerada como uma entidade sagrada. É uma representação da fertilidade, da proteção e do ciclo da vida.

Zitkala-Sa sorriu ao ouvir isso:

— A Mãe Terra é um símbolo de sustentação e conexão. Ela nos ensina a respeitar e cuidar do nosso ambiente. Em minhas histórias, a relação com a Terra é frequentemente central, enfatizando a necessidade de viver em harmonia com o mundo natural.

Louise concordou:

— E essa relação é vital. A Mãe Terra nos lembra que nossas ações têm consequências. Em "Os Filhos de Kichiga", explorei essa conexão e como a destruição do meio ambiente afeta não apenas a natureza, mas também nossa identidade e cultura.

Por fim, Sherman trouxe à tona mais um arquétipo:

— O sábio é outra figura poderosa. Ele representa o conhecimento e a sabedoria acumulados ao longo das gerações. Em “O Sussurro do Vento”, eu retrato um velho sábio que guia a juventude, mostrando que a verdadeira sabedoria vem da experiência e da conexão com os ancestrais.

Zitkala-Sa, com um brilho nos olhos, completou:

— O sábio é essencial para a transmissão de conhecimento. Ele é o guardião das histórias, da cultura e da tradição. Em minhas narrativas, ele frequentemente atua como mentor, ajudando a comunidade a encontrar seu caminho.

Louise, finalizando a conversa, disse:

— E esses arquétipos não são apenas figuras isoladas, mas representam uma teia de interconexões. Cada um deles traz uma lição valiosa sobre a vida, a luta e a resistência. Como escritores, temos a responsabilidade de honrar e transmitir essas histórias.

Com a conversa fluindo, os três escritores sentiram a profundidade e a importância dessas figuras na cultura indígena. Eles sabiam que, ao compartilhar essas narrativas, estavam contribuindo para a preservação de um legado rico e vital.

Sherman, levantando sua xícara, propôs um brinde:

— Às histórias que nos moldam e aos arquétipos que nos inspiram. Que continuemos a contar e a ouvir essas vozes.

Zitkala-Sa e Louise ergueram suas xícaras em resposta, unindo-se ao brinde. A biblioteca, testemunha silenciosa daquele encontro, parecia vibrar com a energia das histórias que estavam prestes a ser contadas e recontadas, perpetuando a rica tapeçaria da cultura indígena.
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* O trickster na mitologia nativa americana é um arquétipo complexo, frequentemente representado como animais astutos como o Coiote, Corvo ou Lebre. Eles desafiam as normas sociais, misturando comportamentos heroicos com tolices, egoísmo e trapaças para ensinar lições, provocar mudanças ou criar o mundo através da desordem. O Coiote é predominante no Sudoeste e Grandes Planícies, enquanto o Corvo é comum no Noroeste Pacífico, e o Coelho no Sudeste. As histórias funcionam para fortalecer o senso de identidade e valores tradicionais através do humor e da sátira.
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Zitkala-Sa (1876 – 1938)
Também conhecida como Gertrude Simmons Bonnin, é uma figura fundamental na literatura indígena pois representa uma voz autêntica e poderosa das comunidades indígenas. Sua escrita reflete experiências pessoais e coletivas, oferecendo uma perspectiva única sobre a vida nativa americana no início do século XX. Ela é conhecida por mesclar elementos da cultura indígena com influências ocidentais, criando uma literatura que dialoga com diferentes tradições. Seus contos frequentemente exploram a tensão entre as culturas nativas e brancas, destacando a luta pela identidade. Além de escritora, Zitkala-Sa foi uma defensora ativa dos direitos dos nativos americanos. Seu trabalho na educação e na promoção dos direitos civis ajudou a aumentar a conscientização sobre as injustiças enfrentadas pelas comunidades indígenas. Era compositora e musicista, e seu envolvimento nas artes contribuiu para a preservação e promoção da cultura indígena. Suas obras, como "American Indian Stories," combinam narrativa e tradição oral, enriquecendo a literatura indígena. Seu papel como mulher escritora é crucial para a representação feminina na literatura indígena. Seu legado continua a inspirar escritores e ativistas contemporâneos, consolidando sua importância na história literária e cultural dos povos indígenas.

SHERMAN ALEXIE (1966)
É uma figura de destaque na literatura indígena contemporânea e sua importância pode ser analisada através de diversos aspectos. Alexie oferece uma voz autêntica que reflete a experiência indígena contemporânea, abordando questões de identidade, cultura e vida urbana. Suas obras capturam a vida de nativos americanos de forma realista e acessível; Ele utiliza humor e ironia para lidar com temas sérios, como a dor histórica, a marginalização e a luta pela identidade. Essa abordagem torna suas narrativas mais impactantes e ressoantes com os leitores; Alexie escreve em diversos gêneros, incluindo poesia, contos e romances. Suas obras, como "The Lone Ranger and Tonto Fistfight in Heaven" e "Absolutely True Diary of a Part-Time Indian", exploram uma variedade de temas e estilos, ampliando a narrativa indígena; Frequentemente aborda a cultura indígena, incorporando tradições, lendas e realidades contemporâneas. Isso ajuda a preservar e promover a herança cultural dos povos nativos americanos; É um defensor ativo dos direitos indígenas e utiliza sua plataforma para aumentar a conscientização sobre questões sociais, políticas e culturais que afetam as comunidades nativas.
Sua presença na literatura ajudou a aumentar a visibilidade de autores indígenas, inspirando uma nova geração de escritores. Ele destaca a importância de contar histórias indígenas em um espaço literário muitas vezes dominado por vozes não-indígenas. Sherman Alexie é vital para a literatura indígena por sua capacidade de capturar e expressar a complexidade da experiência nativa americana contemporânea. Suas obras não apenas entretêm, mas também educam e desafiam os leitores a refletir sobre questões cruciais relacionadas à identidade e à cultura indígena.

LOUISE ERDRICH (1954)
Erdrich é conhecida por criar tapete de histórias que exploram a vida dos nativos americanos, especialmente da tribo Ojibwe. Suas obras muitas vezes entrelaçam personagens e eventos, criando um universo literário coeso que reflete a complexidade da experiência indígena. Ela aborda temas como identidade, tradição e a luta pela sobrevivência cultural. Suas histórias destacam a interconexão entre passado e presente, mostrando como a herança cultural molda as vidas contemporâneas. É aclamada por sua prosa poética e sensível. Ela explora questões de amor, perda, dor e resiliência, trazendo uma profundidade emocional que ressoa com os leitores, tanto indígenas quanto não indígenas. Como uma das principais autoras indígenas, Erdrich traz uma perspectiva feminina valiosa para a literatura. Suas protagonistas frequentemente enfrentam desafios relacionados à identidade de gênero, cultura e família, enriquecendo o discurso sobre a experiência feminina indígena. Também é uma defensora ativa dos direitos indígenas e da preservação da cultura. Ela utiliza sua escrita para aumentar a conscientização sobre questões sociais, políticas e ambientais que afetam as comunidades nativas. Seus livros foram amplamente reconhecidos e premiados, incluindo o National Book Award e o PEN/Nabokov Award.
Louise Erdrich é uma voz vital na literatura indígena, oferecendo narrativas que combinam tradição e modernidade. Sua habilidade em contar histórias complexas e emocionais a torna uma figura central na representação da experiência indígena, contribuindo para a preservação e celebração da cultura nativa americana.
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

O Porquê dos Livros


O relógio de carrilhão da Biblioteca Infinita bateu treze vezes, um horário que só existe no plano das letras. Entre estantes que sumiam nas nuvens de poeira dourada, três figuras se materializaram ao redor de uma mesa de carvalho maciço.

José de Alencar, com sua barba fidalga e postura ereta de quem ainda acredita no Império, ajustou o monóculo. À sua frente, Clarice Lispector, envolta em uma aura de mistério e fumaça de um cigarro invisível, olhava para o nada como se decifrasse o DNA do silêncio. Ao lado dela, Monteiro Lobato, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquieto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente.

— A biblioteca é o pulmão da civilização — começou Alencar, com a voz empolada. — Sem o registro da alma de um povo, de suas raízes e de seu solo, o homem é apenas um náufrago sem bússola. Meus livros buscaram isso: dar ao Brasil uma certidão de nascimento, desde as selvas de O Guarani até os salões do Rio.

Lobato soltou uma risada curta, quase um latido.

— Certidão de nascimento, Alencar? Ora, o povo não quer saber de certidões, quer saber de progresso! O livro é uma ferramenta, um martelo para quebrar as correntes da ignorância. Se eu não tivesse colocado o Visconde de Sabugosa para explicar o mundo, ou a Emília para questionar até a gramática, o Brasil ainda estaria lendo manuais de etiqueta enquanto o petróleo jorra debaixo dos nossos pés!

Clarice, que até então parecia feita de pedra, moveu os olhos lentamente para Lobato. Sua voz veio baixa, vinda de um lugar profundo.

— O mundo não se explica com petróleo, Monteiro. Nem com martelos. O livro... o livro é um ferimento que a gente toca para saber que está vivo. Eu não escrevo para ensinar, nem para fundar nações. Eu escrevo porque o silêncio dói e eu preciso dar um nome a essa dor.

— Mas Clarice, minha cara — interveio Alencar, inclinando-se para frente. — A forma! A estética! O livro deve ser o espelho da nobreza. Em Iracema, eu dei à língua portuguesa o perfume das matas. O livro é importante porque eleva o espírito através da beleza.

— Beleza? — Lobato interrompeu, gesticulando para as prateleiras. — Beleza não enche barriga de criança, nem tira o país do atraso. O livro para o mundo tem que ser o despertar da imaginação crítica. Uma criança que lê sobre o Picapau Amarelo hoje é o cientista que descobre a cura de uma praga amanhã. O livro é fermento! Sem ele, a massa humana não cresce, fica um pão murcho.

Clarice soltou uma pequena nuvem de fumaça espiritual.

— Vocês falam do país, da ciência, da história. Mas o que importa o petróleo ou a nação se, quando você apaga a luz, você não sabe quem é aquela pessoa refletida no espelho? Meus livros são importantes porque são espelhos quebrados. Cada caco reflete uma angústia. O mundo só se salva se cada um se encontrar no labirinto de si mesmo. O livro é o fio de Ariadne que nos leva para dentro, não para fora.

— Mas para onde iremos se não tivermos uma identidade comum? — questionou Alencar, quase ofendido. — Se eu não tivesse escrito sobre o sertão e a corte, seríamos apenas uma cópia pálida da Europa. O livro cria a pátria!

— A pátria é uma invenção de quem tem medo da solidão — retrucou Clarice, com um sorriso enigmático. — A única pátria real é a língua. E a língua é traiçoeira. Ela falha quando a gente mais precisa. Escrever é o esforço de dizer o que não pode ser dito.

Lobato bateu na mesa, fazendo um tinteiro pular.

— Pois eu digo o que deve ser dito! E digo com clareza! O livro é o melhor amigo do homem, mas só se ele o fizer pensar. Se um livro não causar uma revoluçãozinha que seja na cabeça de quem lê, ele serve apenas para calçar pé de mesa. Meus livros são convites à insolência. O mundo precisa de mais Emílias e menos bacharéis!

Alencar suspirou, alisando a barba.

— Somos três cegos descrevendo o elefante. Eu vejo a majestade do animal, sua história e sua pele. Monteiro vê a força do bicho para puxar o arado do progresso. E você, Clarice... você vê o medo que o elefante sente da própria sombra.

— Talvez — disse Clarice, levantando-se. — Mas o elefante só existe porque alguém, um dia, teve a coragem de sentar e escrever a palavra "elefante" no papel.

— Nisso concordamos — assentiu Lobato, subitamente calmo. — Um país se faz com homens e livros.

— E com o mistério que há entre as letras — concluiu Clarice.

As luzes da biblioteca piscaram. O carrilhão bateu a décima quarta hora. Os três escritores, em um último aceno de respeito literário, dissiparam-se entre as estantes, deixando para trás apenas o cheiro de papel antigo, café e uma leve brisa de mar de Copacabana. 

Na mesa, restava apenas uma página em branco, esperando que o próximo habitante do mundo decidisse, afinal, por que os livros importam.

Imagem: Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Viagem ao Passado


1. A Praça 

Antigamente, a praça principal não era apenas um endereço; era o coração pulsante da cidade, um palco onde a vida desfilava sem pressa. Hoje, olhar para trás é perceber que o tempo tinha outra textura, menos frenética e mais humana.

A praça era o destino inevitável. Cercada pelo coreto central, de onde a banda da cidade soprava marchinhas e valsas nas noites de domingo, ela exalava um perfume misto de pipoca doce e jasmim. O chão de mosaico, desenhado com ondas e formas geométricas, servia de pista para o "footing": os rapazes caminhavam em um sentido, as moças no outro, e os olhares se cruzavam no meio do caminho sob a vigilância discreta das matronas sentadas nos bancos de ferro.

Não havia Wi-Fi, mas a conexão era absoluta. As notícias chegavam pela boca do povo, entre um gole de café no bar da esquina e uma engraxada de sapatos. As crianças corriam em volta do chafariz, indiferentes ao mundo lá fora, enquanto os velhos senhores, com seus chapéus de feltro e rádios de pilha, discutiam política e o tempo como se fossem donos de ambos.

Ao cair da tarde, as luzes dos postes de ferro começavam a piscar, tingindo a praça de um dourado nostálgico. Era o sinal de que a missa das sete iria começar ou que o cinema de rua abriria suas portas pesadas. A praça era o nosso espaço comum, onde a riqueza e a pobreza se sentavam no mesmo banco para ver a lua nascer.

Hoje, as praças mudaram, mas a memória daqueles dias ainda resiste no balanço das árvores centenárias que, felizmente, continuam de pé. Recordar é, de certa forma, voltar para aquele banco de madeira e esperar o tempo passar, apenas para ver a vida acontecer.

2. As ruas

As ruas não eram apenas caminhos de passagem; eram extensões das nossas casas, territórios de liberdade moldados em terra batida ou paralelepípedos cinzentos. 

Hoje, quando olhamos para o asfalto liso e impessoal, é difícil não sentir saudade daquela textura irregular que ditava um ritmo de vida muito mais humano e vagaroso.

O silêncio das manhãs era raramente interrompido pelo motor de um carro antigo. Eram máquinas pesadas, de metal reluzente, algumas ainda com o charme rústico da partida na manivela, exigindo força e paciência do motorista. O movimento era tão escasso que o ronco de um motor ao longe servia de aviso: dava tempo de parar a brincadeira, ir para a calçada, acenar para o vizinho e só então retomar o que realmente importava.

E o que importava era o jogo. As calçadas eram arenas de grandes campeonatos de bolinha de gude. Meninos agachados, com o olhar atento e a pontaria calibrada, disputavam "caras" e "biroscas" como se fossem tesouros nacionais. Quando o sol baixava, o cenário mudava para o pega-pega, onde o fôlego parecia infinito e a rua inteira era o campo de batalha.

Mas o ápice da engenharia infantil eram os carrinhos de rolimã. Construídos com tábuas de construção e rolamentos conseguidos em oficinas mecânicas, eles transformavam qualquer ladeira em uma pista de Fórmula 1. O barulho do aço contra o paralelepípedo era o som da adrenalina. O freio? Muitas vezes era a sola do sapato ou, na pior das hipóteses, o próprio joelho. Os joelhos ralados eram medalhas de honra, lavados com água e sabão sob o olhar benevolente das mães que vigiavam da janela.

Havia uma segurança silenciosa que pairava no ar. As portas ficavam encostadas, e o perigo parecia algo distante, de outro mundo. 

À noite, o cenário pertencia aos casais. Caminhavam de braços dados, sem pressa, em um tempo onde a conversa não era interrompida por notificações de celular. O único brilho vinha dos postes amarelados e das estrelas, que pareciam muito mais nítidas sem a poluição luminosa das metrópoles modernas.

A rua antigamente era uma escola de convivência. Entre uma queda de rolimã e uma vitória na bolinha de gude, aprendíamos sobre o mundo, sobre os vizinhos e sobre nós mesmos.

3. Os Cafés

Entrar em um café era como atravessar um portal para um tempo onde a elegância e a palavra tinham um peso sagrado. Hoje, com a pressa dos copos descartáveis, olhar para trás revela o café não apenas como bebida, mas como a moldura social de uma época.

Os grandes estabelecimentos, como o histórico Café Girondino em São Paulo ou o centenário Café Lamas ou a Confeitaria Colombo no Rio, eram palcos de um desfile de distinção. De um lado, homens com ternos impecáveis e chapéus bem ajustados discutiam o destino do país e os rumos do comércio entre uma baforada de charuto e um gole de café preto. Do outro, mulheres com vestidos luxuosos e luvas de seda traziam a sofisticação das capitais europeias para o coração das cidades brasileiras.

Mas a magia acontecia na diversidade de seus cantos:

O Balcão: Onde o encontro era rápido, mas não menos intenso. Era o lugar do "café em pé", das notícias trocadas entre conhecidos e do barulho rítmico das xícaras de porcelana batendo no mármore.

As Mesas de Mármore: Onde o tempo parava. Amigos de longa data se reuniam em grupos ruidosos para celebrar a vida, debater literatura ou simplesmente deixar a tarde passar.

A Xícara como Elo: Seja o "café passado" no coador de pano ou o expresso nascente, a fumaça que subia da xícara era o sinal de que uma conversa importante estava prestes a começar.

Nesses locais, a arquitetura de azulejos antigos e balcões de madeira nobre contava histórias de décadas passadas. Era um território de segurança e convivência, onde a futilidade e o intelecto se sentavam à mesma mesa, unidos pelo aroma inconfundível do grão moído na hora.

Hoje, essas memórias resistem em locais que preservam a atmosfera de 1875 ou 1920, lembrando-nos de que a vida, assim como um bom café, deve ser apreciada em pequenos e pausados goles.


Ao fecharmos as cortinas desse cenário — entre os acordes do coreto, o estalo do rolimã no paralelepípedo e o tilintar das xícaras de porcelana —, percebemos que o que realmente saudamos não é apenas o passado, mas a profundidade das relações que ele abrigava.

A praça, a rua e o café formavam um santuário da presença humana. Eram tempos em que o "olho no olho" não era um esforço, mas a regra; onde a segurança vinha da vizinhança que se conhecia pelo nome e a elegância se manifestava tanto no corte de um terno quanto na gentileza de um "bom dia".

Hoje, embora o asfalto tenha coberto a terra e a pressa tenha silenciado o balcão, essas lembranças permanecem como bússolas. Elas nos recordam que, por trás de toda tecnologia e correria, ainda somos aqueles mesmos seres que buscam um banco de jardim para descansar e uma boa conversa para se sentir em casa. Que a nostalgia desses dias não seja um lamento, mas um convite para resgatarmos, sempre que possível, a doçura de viver um minuto por vez.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Silêncio Ensurdecedor da Solidão

Caminha a passo bem lento,
na estrada que a vida armou;
Hoje está no esquecimento
de quem ele tanto amou.
(José Feldman)

Em um mundo que valoriza a velocidade, a eficiência e a produtividade, os idosos que não possuem um diploma de graduação universitária são frequentemente relegados ao esquecimento. São como folhas secas levadas pelo vento, esquecidas em um canto, sem valor aparente. A vida solitária e desanimadora desses indivíduos é um grito silencioso que ecoa nas ruas vazias, um lembrete cruel de que a sociedade pode ser cruel e injusta.

Eles se sentem desvalorizados, desprezados e rejeitados, como se suas realizações e experiências não tivessem importância. A falta de um diploma é como uma marca de inferioridade, um estigma que os impede de serem vistos como seres capazes e valiosos. Eles se fecham em casa, sem ânimo para sair, sem vontade de se arrumar, sem esperança de serem vistos e ouvidos.

E assim, os idosos se sentem cada vez mais isolados, como se fossem invisíveis aos olhos da sociedade. Eles começam a duvidar de si mesmos, a questionar sua própria capacidade de raciocínio, de julgamento, de decisão. Eles se sentem como se estivessem perdendo a noção de quem são, de o que são capazes.

A falta de reconhecimento e valorização é como um veneno lento, que se infiltra em suas mentes e corrói sua autoestima. Eles começam a acreditar que são realmente inferiores, que não são capazes de contribuir para a sociedade, que não têm nada de valor a oferecer.

E assim, eles se fecham ainda mais, se escondem do mundo, se protegem de mais rejeição e desvalorização. Eles se sentem como párias, como se estivessem à margem da sociedade, sem direito a voz, sem direito a serem ouvidos.

A solidão se torna uma companheira constante, uma sombra que os segue a todos os lugares. Eles se sentem como se estivessem morrendo por dentro, como se estivessem perdendo a vontade de viver.

A casa, que antes era um lar, se transforma em uma prisão, um lugar de isolamento e solidão. As coisas que antes traziam alegria e propósito agora são apenas objetos sem sentido, lembranças de uma vida que não foi vivida. A bagunça e a desordem se acumulam, refletindo a desordem interior, a sensação de vazio e inutilidade.

Mas, é importante lembrar que essas pessoas não são apenas vítimas da sociedade. Elas são seres humanos, com histórias, experiências e sabedoria para compartilhar. Elas são capazes de grandes realizações, de inspirar e motivar outros, de fazer a diferença no mundo.

O que é necessário é que as pessoas as enxerguem, as ouçam e as valorizem. É necessário que as pessoas entendam que um diploma não é o único indicador de valor e capacidade. É necessário que as pessoas reconheçam a dedicação, o esforço e a perseverança dessas pessoas, que muitas vezes trabalharam arduamente para se sustentar e para contribuir para a sociedade.

É necessário que as pessoas sejam empáticas, que se coloquem no lugar dessas pessoas e entendam o que elas estão passando. É necessário que as pessoas sejam gentis, que ofereçam um sorriso, um abraço, um ouvido atento.

Não é necessário ser um especialista para fazer a diferença. Basta ser humano, basta ser presente. Basta dizer "eu estou aqui", "eu te vejo", "eu te valorizo".

A vida é curta, e o tempo é precioso. Não se deve desperdiçá-la com julgamentos e preconceitos. Deve-se aproveitar cada momento para fazer a diferença, para tocar vidas, para inspirar e motivar.

É só olhar para os idosos com novos olhos, com respeito e admiração. Ouvir suas histórias, aprender com suas experiências. Valorizar suas realizações, celebrar suas vitórias, porque, no final, não é o diploma que define uma pessoa, é o seu coração, é a sua alma, é a sua capacidade de amar e ser amado. O que vale é fazer a diferença, fazer com que esses idosos se sintam vistos, ouvidos e valorizados. Fazer com que eles se sintam vivos novamente.

E, quem sabe, talvez um dia possam sair de casa, com a cabeça erguida, prontos para mostrar ao mundo que eles são mais do que um diploma, são homens de experiência, de sabedoria, e, acima de tudo, de valor. 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Debate na Casa de Luz


Era uma tarde ensolarada em Arles, as cores vivas do Provence que pareciam dançar nas paletas dos três mestres. Van Gogh, Gauguin e Monet estavam reunidos em uma pequena casa onde as paredes estavam adornadas com suas obras. A conversa logo se transformou em um acalorado debate.

Van Gogh: (gesticulando para o seu quadro) Olhem para isso! A energia da pintura é palpável. Cada pincelada expressa a turbulência da minha alma. É como se cada estrela estivesse viva, pulsando com a luz.

Gauguin: (rindo) Ah, Vincent, não me diga que você ainda acredita que pintar a realidade é o que a arte deveria ser! Sua paisagem é como um grito, mas eu prefiro a suavidade e a simplicidade da vida. Olhem para a minha tela! (aponta para sua obra) Aqui, eu capturei a essência das coisas — um mundo mais espiritual e menos caótico.

Monet: (com um sorriso irônico) Vocês dois sempre emaranhados nos seus próprios demônios! Eu busco a beleza das coisas efêmeras. A luz e a cor que mudam constantemente. Minha série de Nenúfares é pura Harmonia — um jogo da natureza, não um grito desesperado.

Van Gogh: (frustrado) Harmonia? Claude, sua arte parece uma ilusão! Você está tão perdido na busca da luz que se esquece da luta real dentro de nós. Minhas galas de girassóis são um reflexo da paixão! 

Gauguin: (levantando a voz) A luta não é tudo, Vincent! Existe uma sabedoria na simplicidade. A natureza não é apenas um campo de batalha ou um lugar de dor. É onde encontramos a paz. Os meus quadros buscam provocar um pensamento! Olhem para este! (aponta para seu trabalho) Há uma fantasia que revela a verdade, algo que fatos não podem capturar.

Monet: (sorrindo) E essa fantasia muitas vezes ofusca a realidade! Não podemos esquecer que a natureza é uma dançarina, uma musa que está sempre em transformação. (faz uma pausa) Vocês dois falam de alma e luta, mas eu vejo um jardim.

Van Gogh: Um jardim? Claude, existem jardins imaginários e jardins reais. O que eu vejo nas flores é a fragilidade da vida! Cada girassol em minha tela é um símbolo da luta contra a escuridão.

Gauguin: (interrompendo) E o que é a escuridão sem a luz? Uma obra de arte deve provocar reflexão! Estar em harmonia com o espírito da coisa é mais importante do que a técnica. Você pode ter traços intensos, mas sem compreensão, é apenas ruído.

Monet: (pensando) A técnica é a ponte entre a visão e a realidade! Se você está preocupado só com a mensagem, a pintura se torna um panfleto, não arte! (aponta para os quadros) O que eu desejo é capturar o instante — a beleza do agora.

Van Gogh: (com um sorriso triste) Então, somos todos diferentes, não somos? Vocês preferem sussurrar, enquanto eu grito com cada pincelada. Mas isso é o que torna a arte tão rica e variável! 

Gauguin: E isso é o que devemos celebrar! Cada um de nós tem um olhar único. A arte é o reflexo da nossa experiência. 

Monet: Concordo! Ao final, é a paixão que nos une, mesmo que as nossas paletas sejam diferentes.

E assim, os três mestres continuaram a discutir, rindo e debatendo, cada um defendendo seu mundo particular. O sol se pôs lentamente, lançando um brilho dourado sobre seus quadros, que pareciam, cada um à sua maneira, perfeitamente vivos.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

As Sombras da Solidão

 

(a crônica abaixo, infelizmente, são fatos comuns hoje em dia, alguns elementos a mais fazem parte desta história, mas boa parte deles fazem parte do cotidiano de muitos outros idosos)

Seu nome é Lúcio, um homem que aos 71 anos de idade, vive sozinho em uma pequena casa no interior do Paraná. Para muitos, sua vida pode parecer simples ou até mesmo pacata. Mas, para ele, cada dia é uma batalha silenciosa contra a solidão. Durante mais de uma década, sua única companheira tem sido Sol, uma cadela, que, com seu olhar amoroso e sua presença constante, é a única luz nesta escuridão.

Dezembro chega com a sua fanfarra de luzes cintilantes e sorrisos forjados, uma estação de rádio que só toca a melodia da sua solidão. A proximidade das festas de final de ano não traz alegria; traz uma maré crescente de desânimo e uma depressão silenciosa que se senta com ele à mesa de jantar vazia. Uma onda de melancolia toma conta. É uma época em que todos parecem se reunir; os sorrisos, as luzes, os abraços calorosos. Mas ali, dentro das quatro paredes de sua casa, a realidade é bem diferente. As ruas decoradas e cheias de vida contrastam bruscamente com o vazio do seu lar. Seus familiares, que vivem longe em outro estado, nunca vêm para o visitar. Suas desculpas são sempre as mesmas: “Não posso agora; estou ocupado”, “O trânsito é terrível nessa época”, “É muito longe”. A verdade, que ele já conhece, é que não há espaço para ele na vida deles.

Desde a morte de sua mãe, sete anos atrás, sentiu como se um pano escuro tivesse sido puxado sobre sua existência. Ela era seu porto seguro, a única que o entendia sem precisar de palavras. Com a sua partida, um pedaço dele se foi, e com ele, a conexão com o resto da família. Ele só queria um toque humano, uma palavra amiga, alguém que dissesse que se importava. Mas, em vez disso, o eco do silêncio se tornou seu único familiar.

O casamento com Clara não sobreviveu ao peso das expectativas e dos sonhos desfeitos. Quando conversava com ela, sentia o abismo entre eles, maior que qualquer distância física. Ela fala com um tom sereno, mas em suas palavras há uma nota de superioridade que o fere, quase como se ele fosse um projeto inacabado em comparação aos seus sucessos. Por Lúcio não ter um diploma universitário, a seus olhos era apenas um homem que fracassou em vários aspectos da vida. Ela tem o seu diploma universitário, a sua carreira, a sua vida estruturada, e não perde a oportunidade de lhe fazer sentir a sua falta de instrução. As conversas são um exercício de paciência; ela fala sobre as conquistas e seu trabalho, e ele escuta, tentando encontrar sua voz entre as lembranças que a cercam. Em dias como esses, a saudade se mistura com um profundo desânimo. É uma dança estranha: enquanto ela compartilha sua vida, ele é um espectador, preso em polaroides de um passado que não consegue mudar. Apesar disso, se mantém conectados, a sua conexão distante com o resto do mundo. Neste momento, ela é a ponte que liga seu presente ao passado, embora ele saiba que essa ponte balança sob o peso de suas frustrações.

Sol, por outro lado, não se importa com diplomas ou conquistas. Para ela, ele é suficiente. Quando olha nos olhos dela, percebe que, apesar da dor e da solidão, é amado de uma maneira pura e verdadeira. Ela não sabe das cicatrizes que ele carrega, dos fantasmas que habitam a sombra de sua vida. Para ela, não importa se o Natal não terá presentes, árvores decoradas ou ceias fartas. O que importa é estarem juntos, no calor do seu pequeno lar, onde ele faz o melhor que pode para garantir que ela se sinta amada tanto quanto ele sente.

Refletindo sobre todos esses anos, recorda de um tempo em que também foi pai. Sua filha, que não viveu o suficiente para conhecer o mundo, deixou uma cicatriz que nunca se apagará. Ela foi brutalmente levada dele com apenas alguns meses de vida, O destino, porém, tinha planos cruéis. A sua menina, a sua preciosa filha, foi-lhe tirada de forma brutal, assassinada com apenas alguns meses de vida. Suas esperanças, sonhos e anseios se desfizeram em um instante, como se um vendaval tivesse passado e levado tudo que ele mais amava. A dor foi insuportável. A mãe da menina, a mulher que ele amava, afundou na escuridão da sua própria dor. A perda dela foi o último golpe, e ela decidiu que não queria mais viver, preferindo a escuridão eterna à dor insuportável da realidade. Enquanto a via partir, entendeu que a vida era feita de uma montanha-russa de alegrias e tristezas, mas ele parecia viver só a parte mais pesada da queda, deixando-o num desespero que ainda hoje molda o seu ser. Esse capítulo da sua vida é uma ferida que nunca cicatriza, um lembrete constante da fragilidade da felicidade.

Agora, aqui está, um homem de 71 anos que vive cercado por sombras do passado. À medida que o Natal se aproxima, as memórias se tornam mais intensas: o cheiro da comida que sua mãe preparava, os cafés à tarde, as brincadeiras que ecoavam pela casa, o calor dos abraços de sua esposa. Essas lembranças são tanto o seu consolo quanto a sua condenação. O tempo não apagou a dor, ele apenas a tornou parte de quem é.

Nesta véspera de Natal, enquanto Sol se aconchega ao seu lado no sofá, sente a solidão se instalar ao seu redor. Neste momento, não tem presentes para dar. Não há árvores cheias de enfeites, nem laços coloridos. Passarão as festas juntos, no silêncio da sua casa, observando o mundo lá fora celebrar uma união que não lhes pertence. Ao invés disso, o que há é a promessa de mais um dia juntos, uma certeza que, apesar de tudo, traz um leve sorriso aos seus lábios. Ao olhar pela janela, as luzes piscantes da cidade não lhe atraem mais. Em vez de lembrar do que perdeu, sente uma alegria ainda que transitória de estar com seu amor maior, sua cadela Sol.

Percebe que, mesmo sem a presença da família, tem Sol, sua única família presente, verdadeira, que sempre estará ao seu lado, com seu amor incondicional. Ela é a única razão pela qual ainda levanta da cama todos os dias. Ela é o seu raio de sol que lhe aquece as manhãs.

Eles, na certa, se aconchegarão em um canto do sofá, com um filme antigo na televisão e o coração esperançoso, mesmo que ligeiramente quebrado. Porque a vida, com todas as suas durezas, ainda tem seus pequenos momentos de alegria. E enquanto Sol estiver ali, ele não estará completamente sozinho.

Ah, como gostaria de viver por um momento, a festa que tanto anseia. Mas o que ele tem é uma xícara de chá e a alegria simples que Sol traz para os seus dias.

Afinal, Lúcio e Sol são uma dupla imbatível, navegando em mares de solidão. E quando der meia-noite na certa ficarão deitados lado a lado como dois seres que se amam muito e esperando o sono os levar a um mundo de sonhos, de felicidade, de amor, de amizade, de espíritos livres.

No final, o que mais poderia desejar além disso? Um amor simples, uma amizade leal, e a esperança de que um dia, as sombras do passado possam dar lugar a dias mais iluminados. Para ele, isso deve ser suficiente.
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os nomes foram modificados para preservar suas identidades
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), . Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fonte: José Feldman. Caleidoscópio da Vida. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2025.
Imagem obtida com Microsoft Bing

sábado, 6 de dezembro de 2025

O Crepúsculo dos Justos


A cidade roncava lá fora, um organismo indiferente feito de buzinas e pressa. Dentro das paredes que um dia abrigaram risadas fartas e jantares de fim de semana, agora reinava um silêncio pesado, quebrado apenas pelo tique-taque melancólico de um relógio de pêndulo. Ali vivia Horácio, um homem que a vida havia dobrado, mas não quebrado — pelo menos não até agora.

Horácio era a personificação da generosidade. Um homem cuja biografia poderia ser escrita com os gestos de bondade que dedicou a todos ao seu redor. Divorciado há uma década, ele investiu o restante de suas energias em amigos que ele considerava sua família estendida. Ele era o ombro para chorar, o caixa para emprestar dinheiro sem juros e o motorista do dia e da noite. Dedicação incondicional. Amor em sua forma mais pura e desinteressada.

Mas o tempo é um cobrador impiedoso. A idade é implacável, o corpo de Horácio começou a falhar antes do espírito. O caminhar virou arrastar, a memória, uma peneira fina onde os nomes recentes se perdiam, e a independência, uma miragem distante. Ele precisava de cuidados, de presença, de uma mão que o guiasse no labirinto da velhice frágil.

Foi então que a verdadeira face da "amizade" começou a se revelar, não em um ato de traição, mas no silêncio ensurdecedor da omissão.

A reunião aconteceu na sala de estar, a mesma sala onde, anos atrás, eles brindavam a aniversários e conquistas. Estavam lá Mário, o empresário a quem Horácio tirou do buraco da falência; Lúcia, cuja faculdade foi paga com um empréstimo que jamais foi cobrado; e Beto, o afilhado que Horácio ensinou a andar de bicicleta e a viver com dignidade.

A conversa começou com eufemismos, palavras polidas que tentavam mascarar a crueza do abandono.

"Horácio, pensamos muito em você", começou Mário, ajustando os óculos caros. "Você precisa de um lugar com mais estrutura, com médicos 24 horas por dia."

"Sim, um lar de idosos", completou Lúcia, olhando para as próprias unhas. "Lá tem atividades, outros velhinhos para conversar... é melhor para o seu astral."

"É o melhor para você, padrinho", Beto tentou, evitando o olhar mareado do velho.

Eles falavam de "lares" e "clínicas de repouso" com a mesma naturalidade que se fala de um resort de férias. O eufemismo era a cortina de fumaça para a verdade brutal: eles não queriam a responsabilidade. A gratidão tinha prazo de validade. As promessas de "para sempre amigos" se dissolviam diante da perspectiva de trocar fraldas, agendar médicos ou, pior, abrir mão de uma hora de sua vida ocupada para simplesmente fazer companhia a Horácio.

Horácio não discutiu. Ele apenas ouviu. E em cada palavra vazia, sentiu o peso da rejeição cair sobre seus ombros já curvados. O asilo não era uma solução de cuidado; era uma solução de descarte.

Naquela noite, sozinho em seu quarto, Horácio encarou o espelho. Não viu o homem generoso que dedicou sua vida aos outros, viu apenas um estorvo, uma bagagem que seus amigos — sua suposta família — estavam ansiosos para despachar.

O descaso é uma forma de violência silenciosa, um veneno de ação lenta. A atitude deles não apenas minou sua saúde física, mas aniquilou seu espírito. A autoestima de Horácio, que sempre se baseou em seu valor como pilar de apoio para os outros, desabou. Ele se sentiu o homem mais solitário e mal-amado do mundo.

A rejeição doeu mais do que a artrite nos joelhos ou a falha da memória. Doeu na alma. A ingratidão daqueles a quem ele amou incondicionalmente transformou seus últimos anos em um inverno perpétuo.

Ele não foi para um asilo. Foi para um depósito. Um depósito de memórias, onde o amor que ele distribuiu jazia esquecido, e onde a única companhia era a sombra da solidão, tecida pela indiferença daqueles que um dia chamou de amigos. 

A crônica da sua vida terminou não com um rugido, mas com o sussurro triste de um adeus silencioso a um mundo que ele amou, mas que se recusou a amá-lo de volta quando ele mais precisava.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Ecos da Violência em um Mundo em Desacordo


 Vivemos em tempos em que a dor e o terror parecem estar cada vez mais entrelaçados em nosso cotidiano. As guerras se multiplicam como ervas daninhas, brotando em qualquer parte do mundo onde líderes, ávidos por poder e controle, não hesitam em sacrificar a paz em nome de ambições pessoais. É um espetáculo trágico, onde o valor da vida é reduzido a meras estatísticas, enquanto as balas e os bombardeios ressoam como uma sinfonia macabra, privando a vida de milhares de pessoas sem um respingo de amor pela vida humana.

A televisão, um dos principais meios de formação de opinião e comportamento, tornou-se um campo de batalha onde a violência é glorificada. Os programas que atraem a atenção dos jovens estão recheados de cenas grotescas, onde vampiros e zumbis dominam narrativas que banalizam a morte e o sofrimento. Entre uma série e outra, há uma programação que mistura a ficção mais aterrorizante com os realities mais cruéis, trazendo uma nova forma de entretenimento que, na verdade, reflete uma sociedade em profunda crise. Enquanto a realidade clama por vozes de justiça e compaixão, enredamo-nos em histórias que alimentam a violência ao invés de promover a compreensão.

Os ecrãs se tornam janelas para um abismo que ecoa sentimentos destrutivos. As crianças e adolescentes, diante desses conteúdos, modelam suas perspectivas e comportamentos. Ao invés de imaginarem um mundo repleto de possibilidades pacíficas, absorvem uma visão distorcida, onde a força e a agressão se tornaram a norma. As conversas que poderiam girar em torno do amor e da solidariedade são substituídas pela retórica do “nós contra eles”, perpetuando barreiras que deveriam ser destruídas.

Nos séculos passados, a humanidade fez progressos impressionantes em ciência e tecnologia. As inovações nos conectaram de maneira que nunca antes se viu. Contudo, essa mesma evolução parece despontar uma falência moral. A arte e a educação, potências para o desenvolvimento humano, são frequentemente ofuscadas pelo brilho da violência. O retrato atual é o de uma sociedade em que a empatia e o respeito pelo próximo parecem resquícios de um passado que não se revisitou.

E em meio a essa turbulência, as mulheres continuam a ser tratadas como objetos, corpos que, em muitas culturas, são vistos como prêmios em disputas, ou vítimas em circunstâncias que escandalizam os mais sensíveis. Em um mundo que deveria ser de igualdade, a misoginia ainda ressoa com força, como se houvesse um consenso silencioso de que suas vidas têm menor valor. Assistimos a atos brutais, discursos odiosos e uma cultura que perpetua a ideia de que é aceitável desumanizar a mulher. O que é mais chocante: o ato em si ou a indiferença que o rodeia?

As novas gerações erguem-se sob o peso desse legado de desamor e agressão. É desesperador pensar que, ao invés de estarmos moldando um futuro de paz, estamos semeando as sementes da discórdia e da intolerância. O mundo digital, que poderia ser uma plataforma de troca de ideias e construção de pontes, acaba se tornando um terreno fértil para o ódio e a divisão.

Entretanto, há uma esperança latente. Cada crise traz consigo uma oportunidade de reflexão e transformação. É possível que as vozes que clamam por paz e por equidade ganhem força em meio ao ruído ensurdecedor da violência. Educadores e artistas têm um papel fundamental na reconstrução do tecido social. É através da arte que podemos inspirar mudança, e por meio da educação que podemos abrir os olhos das futuras gerações, mostrando que um mundo baseado no respeito e na empatia é não apenas desejável, mas possível.

A verdadeira evolução não está apenas nas máquinas que criamos, mas na capacidade de nos entendermos e apoiarmos uns aos outros. A resistência à violência começa com pequenos atos de bondade, com diálogos abertos sobre as verdades que nos machucam e com um compromisso coletivo de construir um futuro que respeite a dignidade de todos.

Que possamos, então, ser agentes de mudança nesse cenário nebuloso, ampliando a luz em vez de alimentar a escuridão. Porque no fim, a verdadeira luta é aquela que travamos no interior de nós mesmos. A guerra que queremos vencer não é contra um inimigo distante, mas contra os preconceitos e as barreiras que nos afastam um dos outros. Se de fato quisermos um amanhã, cabe a nós plantarmos as sementes dessa revolução silenciosa e poderosa.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficinas de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence à Confraria Luso-Brasileira de Trovadores. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007 e Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Passarinho na Gaiola

 Passarinho na Gaiola
Privado da liberdade
lindo pássaro cantador,
na gaiola, de saudade,
canta triste a sua dor…
Maria Helena Ururahy C. Fonseca
(Angra dos Reis/RJ)

Oprimido na gaiola,
lamentando a escravidão,
o sabiá cantarola
para o algoz sem coração.
Ruth Farah Lutterback +
(Cantagalo/RJ)

Paulo era um homem solitário que encontrava alegria em um pequeno passarinho que mantinha em uma gaiola. O passarinho, um canário de penas amarelas brilhantes, era sua companhia mais fiel. Paulo gostava de ouvir seu canto suave e melodioso, especialmente nas manhãs ensolaradas, quando a luz do dia filtrava-se pela janela, iluminando sua pequena casa.

Todos os dias, ao acordar, se aproximava da gaiola e falava com o passarinho, que respondia com seu canto. Para Paulo, aquele som era como um alívio à solidão que o cercava. Ele acreditava que, mantendo o passarinho preso, estava garantindo sua segurança e, assim, poderia desfrutar de sua música sempre que quisesse.

Certa tarde, Ricardo, um amigo de Paulo, decidiu visitá-lo. Eles conversaram sobre a vida, sobre as lembranças de antigamente e, é claro, sobre o passarinho. 

– Você tem um passarinho lindo, Paulo. Deve ser maravilhoso ouvir seu canto. - comentou Ricardo, tomando um gole de café.

– É verdade! - respondeu Paulo, com um sorriso. – Ele é minha companhia. Eu gosto de ouvi-lo cantar.

Ricardo franziu a testa, surpreso. 

– Mas por que deixá-lo preso? Para ouvi-lo cantar? Isso não parece certo. Ele tem asas, Paulo. As aves devem voar livremente.

Paulo hesitou. 

– Mas se eu soltar, ele pode fugir. E eu ficaria sozinho novamente.

– Mas você já percebeu que o canto dele não é de alegria, mas de tristeza? Ele está preso, e seu canto reflete isso. Assim como nós, humanos, temos pés para andar, as aves têm asas para voar. Ninguém gosta de estar preso. E se fosse você preso em uma gaiola, sem poder sair para andar? Como se sentiria?

As palavras de Ricardo ecoaram na mente de Paulo. Ele nunca havia pensado dessa forma. Naquela noite, enquanto o passarinho cantava, ele começou a prestar atenção ao tom de sua música. Era verdade: havia uma melancolia em seu canto que antes não percebera. O coração de Paulo apertou-se com a dor de compreender que, mesmo cuidando do passarinho, estava privando-o de sua liberdade.

Paulo ficou em um dilema. Ele amava o passarinho e queria que ele fosse feliz, mas o medo da solidão o impedia de agir. No entanto, a consciência pesada começou a se tornar insuportável. Com um suspiro profundo, decidiu que precisava fazer o que era certo. 

Com tremor nas mãos, abriu a gaiola.

O passarinho hesitou por um momento, mas assim que viu a porta aberta, voou para fora em um esplêndido bater de asas. Seu canto mudou imediatamente, não era mais triste, mas alegre e vibrante. 

Paulo olhou enquanto o pequeno ser alado disparava para o céu, sentindo uma mistura de alívio e dor. Ele havia feito o que era certo, mas agora sentia-se mais sozinho do que nunca.

Nos dias que se seguiram, Paulo se fechou em seu mundo. Olhava pela janela, desejando que o passarinho voltasse, mas sua casa parecia mais silenciosa do que nunca. A ausência do canário o envolveu em uma profunda tristeza. Ele se afastou dos amigos, deixou de sair, mergulhando em um torpor.

Porém, algo inesperado aconteceu. Um dia, enquanto Paulo olhava para a janela, ouviu um canto familiar. Seu coração disparou quando viu o passarinho pousando na borda da janela, cantando alegremente como nunca antes. Era como se o sol tivesse surgido novamente em sua vida.

"Você voltou!", exclamou Paulo, surpreso e emocionado. Ele se aproximou da janela e, com lágrimas nos olhos, disse: "Desculpe-me por ter te prendido. Eu não queria que você se sentisse triste."

O passarinho parecia entender. Ele cantou ainda mais alto, e Paulo sentiu que aquelas notas eram uma resposta ao seu arrependimento. O canto do passarinho ressoava como uma melodia de perdão e amizade. 

A cada manhã e cada final de tarde, o passarinho voltava, enchendo o ar com sua música.

Paulo começou a sair de casa, encontrando um novo propósito. Ele cuidava do jardim, plantava flores e desfrutava da natureza ao seu redor. O passarinho voava pelo quintal, pousando nas árvores e cantando, e Paulo sempre o esperava na janela.

A liberdade do passarinho trouxe vida nova a Paulo. Ele entendia, finalmente, que a verdadeira amizade é baseada na liberdade e no respeito. E assim, o passarinho e Paulo formaram um laço que transcendeu as paredes da casa, celebrando a beleza da liberdade e a alegria da companhia.
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A liberdade e o respeito pela vida dos outros sempre são recompensados. A verdadeira amizade não se baseia na possessão, mas na capacidade de permitir que o outro seja livre e feliz.

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles p...