quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Chave da agonia


Esta é a saga de Tibúrcio, um homem cuja memória tem o tempo de vida de uma bolha de sabão e cuja paciência foi testada pelo destino em uma noite de sábado.

Era um sábado. Passou na casa de sua amiga, Raquel, para um "café" rápido. O plano era simples: ele estacionava, subia, tomava um café, jogaria conversa fora e depois a levava em seu carro até uma festa no extremo sul da cidade. Ele morava no extremo norte. Entre eles, havia um oceano de asfalto, semáforos inteligentes que pareciam ter raiva dele e o trânsito caótico de uma metrópole.

Eles atravessaram a cidade. Enfrentaram trânsito, radares e viadutos. Demorou tanto que verificou se não tinham atravessado o país. Tibúrcio deixou Raquel na porta da festa, despediu-se com um "divirta-se!" e dirigiu 40 minutos de volta para sua doce e confortável casa.

Ao estacionar na garagem, veio o primeiro ato da tragédia. Tibúrcio tateou o bolso direito. Nada. O esquerdo. Vazio. O console do carro. Apenas um chiclete velho. Foi então que o flashback o atingiu como um trem: Foi então que a imagem do abacate de pelúcia sorrindo para ele de cima da mesa de Raquel surgiu como uma assombração. Ele havia tirado as chaves do bolso para não furar o estofado do sofá e as deixara exatamente ali, em cima da mesa de centro dela.

— Não pode ser — murmurou ele para o volante. — Eu sou um gênio do mal contra mim mesmo.

Tibúrcio não tinha a chave de casa, mas Raquel tinha a chave da casa dela... que estava na bolsa dela... na festa... na Zona Norte.

Ele virou o carro e cruzou a cidade novamente. Enquanto dirigia, o GPS parecia rir dele, recalculando rotas para o inferno logístico. Chegou à festa esbaforido. Raquel estava no meio da pista de dança, segurando um copo de caipirinha, quando viu o rosto pálido de Tibúrcio entre os globos de luz.

— Esqueceu o quê? — gritou ela por causa do som alto.

— Minha chave! No seu sofá! Me dá a chave da sua casa! — implorou ele.

Ela, rindo dele, entregou o molho de chaves. 

Tibúrcio saiu correndo, atravessou a cidade pela terceira vez (agora voltando para a Zona Sul) para entrar na casa dela. Ele abriu a porta, resgatou suas chaves sagradas no sofá e sentiu um alívio momentâneo. 

Mas o destino é um roteirista cruel. Logo a percepção cruel o atingiu: Ele agora estava com a sua chave, mas estava com a chave de Raquel. E ela precisaria delas para entrar em casa.

Ele suspirou, olhando para o relógio que já marcava quase alta horas da madrugada, saiu bufando de raiva consigo mesmo. Oh, destino cruel!

Lá foi Tibúrcio, pela quarta vez, atravessar a metrópole rumo à Zona Norte. O sol ameaçava dar as caras no horizonte. Ele dirigia com os olhos ardendo, ultrapassando caminhões de lixo e entregadores de jornal. A essa altura, ele já conhecia cada buraco do asfalto. Chegou na festa, devolveu as chaves para uma Raquel já levemente alterada pelo álcool. Apenas acenou dizendo: 

“Aqui... sua chave... “ — ele mal conseguia articular as palavras.

“Ah, valeu! Você é um anjo, um herói ou um idiota, ainda não decidi".

“Meu reino por uma cama, Raquel. Não aguento mais dirigir.”

Finalmente, Tibúrcio fez a quinta e última viagem da noite. Cruzou a cidade de volta para sua casa. 

Ao inserir a chave na fechadura, ele quase chorou de emoção. Entrou, trancou a porta, colocou as chaves no chaveiro da porta, e foi dormir.

No dia seguinte, acordou com uma mensagem de Raquel: 

"Oi! Você viu meu celular? Acho que ficou no seu carro quando você me deu carona..."

Tibúrcio, ainda sonado: 

“Isto é piada, não é? Nem que os porcos criem asas, vou sair desta cama pra ver!” 

Apenas desligou o aparelho e voltou a dormir.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles p...