quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles para a literatura indígena.
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Era uma noite tranquila, e a vasta biblioteca de uma cidade pequena estava envolta em um silêncio quase sagrado. As luzes suaves iluminavam as prateleiras repletas de livros, enquanto o aroma de café fresco pairava no ar da cafeteria interna. Era um local onde o tempo parecia parar, e as histórias aguardavam pacientemente para serem contadas.

Naquela noite, uma estranha energia permeava o ambiente. À medida que o relógio soava a meia-noite, três vozes ecoaram suavemente, como se tivessem sido chamadas por um poder ancestral. Sherman Alexie, Zitkala-Sa e Louise Erdrich se encontraram ao redor de uma mesa de madeira, cada um trazendo consigo um mundo de experiências e narrativas.

Sherman, com seu jeito descontraído, tomou um gole de café e abriu a conversa:

— Que prazer estar aqui com vocês! Sou Sherman Alexie, e minhas histórias frequentemente falam da vida contemporânea dos povos indígenas, entrelaçando humor e dor.

Zitkala-Sa, com sua presença forte e serena, sorriu e respondeu:

— Eu sou Zitkala-Sa. Minhas obras refletem a luta dos povos nativos, especialmente a busca por identidade cultural. O que me fascina é como as nossas lendas, em especial as de tricksters*, nos ensinam sobre resiliência e astúcia.

Louise, com seu olhar profundo e contemplativo, acrescentou:

— Sou Louise Erdrich. Em meus livros, a tradição indígena é um fio condutor. O trickster, como o famoso Raven e o Coyote, é uma figura essencial em nossas histórias. Ele nos mostra que a sabedoria pode vir das situações mais inesperadas.

Sherman, entusiasmado com o tópico, começou a explorar:

— O trickster é uma metáfora poderosa para a dualidade da vida. Ele nos ensina que a sabedoria não é apenas encontrada na conformidade, mas também na subversão das regras. Em “A Última Fala de um Lobo”, por exemplo, o trickster desafia a ordem estabelecida, revelando verdades escondidas.

Zitkala-Sa assentiu, olhando para os dois:

— Exatamente. Em minhas histórias, o trickster muitas vezes representa a luta contra a opressão. Ele é alguém que transcende as limitações impostas pela sociedade. Em “O Dia da Morte”, por exemplo, o trickster é uma figura que, ao mesmo tempo que causa caos, também traz renovação.

Louise, refletindo sobre as palavras de Zitkala-Sa, acrescentou:

— E o trickster também nos ensina sobre a fragilidade da vida. Em “A Casa do Espírito”, a presença do Coyote nos lembra que a vida é uma dança entre a criação e a destruição, entre o riso e a tristeza. Essa dualidade é a essência de nossas culturas.

Sherman, pegando um pedaço de bolo, continuou:

— O trickster é uma figura que nos faz rir de nós mesmos. Ele expõe nossas fraquezas, mas faz isso de um jeito que nos faz refletir. Em “Os Contos do Meu Pai”, eu uso o humor do trickster para abordar questões sérias sobre a identidade indígena.

Zitkala-Sa sorriu, lembrando-se de suas próprias experiências:

— O humor é uma forma poderosa de resistência. O trickster quebra as barreiras que a opressão tenta impor. Em minhas lendas, ele é muitas vezes um salvador disfarçado, que traz esperança em tempos difíceis.

Louise, agora com um brilho nos olhos, completou:

— E a beleza do trickster é que ele é universal. Mesmo fora do contexto indígena, suas lições ressoam. Ele nos mostra que, mesmo em meio ao sofrimento, sempre há espaço para a criatividade e a transformação.

À medida que a conversa avançava, as vozes dos três escritores se entrelaçavam, criando uma tapeçaria rica em significados. A cafeteria da biblioteca parecia pulsar com a energia de suas ideias, e o tempo passou sem que eles percebessem.

Sherman, olhando para as duas com gratidão, disse:

— É incrível como as histórias nos conectam. O trickster não é apenas uma figura folclórica, mas uma manifestação da luta humana. Ele nos lembra que, por trás de cada risada, pode haver uma verdade profunda.

Zitkala-Sa, com seu olhar sereno, concluiu:

— E que, em cada história que contamos, estamos perpetuando nossa cultura e identidade. O trickster é um símbolo de resistência e transformação, um reflexo da nossa força.

Louise, inspirada, finalizou:

— Que possamos sempre encontrar espaço para o trickster em nossas vidas. Ele nos ensina a abraçar a complexidade da existência, a rir de nossas falhas e a celebrar nossas vitórias.

E assim, naquela biblioteca mágica, os três escritores se uniram em um diálogo atemporal, compartilhando histórias e sabedoria, sabendo que a força de suas narrativas continuaria a ecoar através das páginas dos livros e na memória de seus leitores.

Enquanto a luz da manhã começava a iluminar a biblioteca, Sherman, Zitkala-Sa e Louise continuaram sua conversa, agora explorando outros arquétipos indígenas que mereciam destaque. As xícaras de café esvaziavam-se lentamente, mas suas mentes estavam cheias de ideias.

Sherman, inclinando-se para frente, começou:

— Além do trickster, não podemos esquecer o arquétipo do guerreiro. Em muitas culturas indígenas, o guerreiro não é apenas um lutador, mas um protetor da comunidade. Ele representa coragem, honra e sacrifício. Em “A Última Fala de um Lobo”, eu retrato guerreiros que lutam não apenas contra inimigos externos, mas também contra os demônios internos.

Zitkala-Sa acenou com a cabeça:

— Concordo. O guerreiro é muitas vezes uma figura de resistência. Em minhas histórias, as guerreiras também desempenham um papel crucial. Elas são força, sabedoria e compaixão. A figura da mulher guerreira simboliza a luta pela justiça e pela preservação da cultura.

Louise, pensativa, acrescentou:

— E essas figuras muitas vezes estão interligadas. O guerreiro e a guerreira trabalham juntos para proteger e nutrir a comunidade. Em “A Casa do Espírito”, eu exploro essa dinâmica, mostrando como a força é encontrada na união e na solidariedade.

Sherman seguiu em frente, entusiasmado:

— Outro arquétipo importante é o curandeiro. Ele representa o conhecimento ancestral e a conexão com a natureza. O curandeiro não cura apenas o corpo, mas também a alma da comunidade. Em “O Que o Rio Contou”, o curandeiro utiliza a sabedoria dos antigos para restaurar a harmonia.

Zitkala-Sa, com um olhar contemplativo, comentou:

— O curandeiro é um símbolo de esperança e renovação. Ele nos lembra da importância das tradições e da medicina natural. Em muitas lendas, o curandeiro é também um mediador entre o mundo visível e o invisível, o que traz um equilíbrio necessário.

Louise, entusiasmada, acrescentou:

— E essa conexão com a natureza é fundamental. O curandeiro nos ensina que a cura vem da terra e dos elementos. Em meus livros, frequentemente retrato essa relação íntima, mostrando como a natureza é uma fonte de sabedoria e força.

Sherman, agora refletindo sobre a conversa, mencionou:

— E não podemos esquecer o arquétipo da Mãe Terra. Ela é a fonte de vida, a nutridora. Em muitas culturas indígenas, a Terra é venerada como uma entidade sagrada. É uma representação da fertilidade, da proteção e do ciclo da vida.

Zitkala-Sa sorriu ao ouvir isso:

— A Mãe Terra é um símbolo de sustentação e conexão. Ela nos ensina a respeitar e cuidar do nosso ambiente. Em minhas histórias, a relação com a Terra é frequentemente central, enfatizando a necessidade de viver em harmonia com o mundo natural.

Louise concordou:

— E essa relação é vital. A Mãe Terra nos lembra que nossas ações têm consequências. Em "Os Filhos de Kichiga", explorei essa conexão e como a destruição do meio ambiente afeta não apenas a natureza, mas também nossa identidade e cultura.

Por fim, Sherman trouxe à tona mais um arquétipo:

— O sábio é outra figura poderosa. Ele representa o conhecimento e a sabedoria acumulados ao longo das gerações. Em “O Sussurro do Vento”, eu retrato um velho sábio que guia a juventude, mostrando que a verdadeira sabedoria vem da experiência e da conexão com os ancestrais.

Zitkala-Sa, com um brilho nos olhos, completou:

— O sábio é essencial para a transmissão de conhecimento. Ele é o guardião das histórias, da cultura e da tradição. Em minhas narrativas, ele frequentemente atua como mentor, ajudando a comunidade a encontrar seu caminho.

Louise, finalizando a conversa, disse:

— E esses arquétipos não são apenas figuras isoladas, mas representam uma teia de interconexões. Cada um deles traz uma lição valiosa sobre a vida, a luta e a resistência. Como escritores, temos a responsabilidade de honrar e transmitir essas histórias.

Com a conversa fluindo, os três escritores sentiram a profundidade e a importância dessas figuras na cultura indígena. Eles sabiam que, ao compartilhar essas narrativas, estavam contribuindo para a preservação de um legado rico e vital.

Sherman, levantando sua xícara, propôs um brinde:

— Às histórias que nos moldam e aos arquétipos que nos inspiram. Que continuemos a contar e a ouvir essas vozes.

Zitkala-Sa e Louise ergueram suas xícaras em resposta, unindo-se ao brinde. A biblioteca, testemunha silenciosa daquele encontro, parecia vibrar com a energia das histórias que estavam prestes a ser contadas e recontadas, perpetuando a rica tapeçaria da cultura indígena.
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* O trickster na mitologia nativa americana é um arquétipo complexo, frequentemente representado como animais astutos como o Coiote, Corvo ou Lebre. Eles desafiam as normas sociais, misturando comportamentos heroicos com tolices, egoísmo e trapaças para ensinar lições, provocar mudanças ou criar o mundo através da desordem. O Coiote é predominante no Sudoeste e Grandes Planícies, enquanto o Corvo é comum no Noroeste Pacífico, e o Coelho no Sudeste. As histórias funcionam para fortalecer o senso de identidade e valores tradicionais através do humor e da sátira.
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Zitkala-Sa (1876 – 1938)
Também conhecida como Gertrude Simmons Bonnin, é uma figura fundamental na literatura indígena pois representa uma voz autêntica e poderosa das comunidades indígenas. Sua escrita reflete experiências pessoais e coletivas, oferecendo uma perspectiva única sobre a vida nativa americana no início do século XX. Ela é conhecida por mesclar elementos da cultura indígena com influências ocidentais, criando uma literatura que dialoga com diferentes tradições. Seus contos frequentemente exploram a tensão entre as culturas nativas e brancas, destacando a luta pela identidade. Além de escritora, Zitkala-Sa foi uma defensora ativa dos direitos dos nativos americanos. Seu trabalho na educação e na promoção dos direitos civis ajudou a aumentar a conscientização sobre as injustiças enfrentadas pelas comunidades indígenas. Era compositora e musicista, e seu envolvimento nas artes contribuiu para a preservação e promoção da cultura indígena. Suas obras, como "American Indian Stories," combinam narrativa e tradição oral, enriquecendo a literatura indígena. Seu papel como mulher escritora é crucial para a representação feminina na literatura indígena. Seu legado continua a inspirar escritores e ativistas contemporâneos, consolidando sua importância na história literária e cultural dos povos indígenas.

SHERMAN ALEXIE (1966)
É uma figura de destaque na literatura indígena contemporânea e sua importância pode ser analisada através de diversos aspectos. Alexie oferece uma voz autêntica que reflete a experiência indígena contemporânea, abordando questões de identidade, cultura e vida urbana. Suas obras capturam a vida de nativos americanos de forma realista e acessível; Ele utiliza humor e ironia para lidar com temas sérios, como a dor histórica, a marginalização e a luta pela identidade. Essa abordagem torna suas narrativas mais impactantes e ressoantes com os leitores; Alexie escreve em diversos gêneros, incluindo poesia, contos e romances. Suas obras, como "The Lone Ranger and Tonto Fistfight in Heaven" e "Absolutely True Diary of a Part-Time Indian", exploram uma variedade de temas e estilos, ampliando a narrativa indígena; Frequentemente aborda a cultura indígena, incorporando tradições, lendas e realidades contemporâneas. Isso ajuda a preservar e promover a herança cultural dos povos nativos americanos; É um defensor ativo dos direitos indígenas e utiliza sua plataforma para aumentar a conscientização sobre questões sociais, políticas e culturais que afetam as comunidades nativas.
Sua presença na literatura ajudou a aumentar a visibilidade de autores indígenas, inspirando uma nova geração de escritores. Ele destaca a importância de contar histórias indígenas em um espaço literário muitas vezes dominado por vozes não-indígenas. Sherman Alexie é vital para a literatura indígena por sua capacidade de capturar e expressar a complexidade da experiência nativa americana contemporânea. Suas obras não apenas entretêm, mas também educam e desafiam os leitores a refletir sobre questões cruciais relacionadas à identidade e à cultura indígena.

LOUISE ERDRICH (1954)
Erdrich é conhecida por criar tapete de histórias que exploram a vida dos nativos americanos, especialmente da tribo Ojibwe. Suas obras muitas vezes entrelaçam personagens e eventos, criando um universo literário coeso que reflete a complexidade da experiência indígena. Ela aborda temas como identidade, tradição e a luta pela sobrevivência cultural. Suas histórias destacam a interconexão entre passado e presente, mostrando como a herança cultural molda as vidas contemporâneas. É aclamada por sua prosa poética e sensível. Ela explora questões de amor, perda, dor e resiliência, trazendo uma profundidade emocional que ressoa com os leitores, tanto indígenas quanto não indígenas. Como uma das principais autoras indígenas, Erdrich traz uma perspectiva feminina valiosa para a literatura. Suas protagonistas frequentemente enfrentam desafios relacionados à identidade de gênero, cultura e família, enriquecendo o discurso sobre a experiência feminina indígena. Também é uma defensora ativa dos direitos indígenas e da preservação da cultura. Ela utiliza sua escrita para aumentar a conscientização sobre questões sociais, políticas e ambientais que afetam as comunidades nativas. Seus livros foram amplamente reconhecidos e premiados, incluindo o National Book Award e o PEN/Nabokov Award.
Louise Erdrich é uma voz vital na literatura indígena, oferecendo narrativas que combinam tradição e modernidade. Sua habilidade em contar histórias complexas e emocionais a torna uma figura central na representação da experiência indígena, contribuindo para a preservação e celebração da cultura nativa americana.
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

A Chave da agonia


Esta é a saga de Tibúrcio, um homem cuja memória tem o tempo de vida de uma bolha de sabão e cuja paciência foi testada pelo destino em uma noite de sábado.

Era um sábado. Passou na casa de sua amiga, Raquel, para um "café" rápido. O plano era simples: ele estacionava, subia, tomava um café, jogaria conversa fora e depois a levava em seu carro até uma festa no extremo sul da cidade. Ele morava no extremo norte. Entre eles, havia um oceano de asfalto, semáforos inteligentes que pareciam ter raiva dele e o trânsito caótico de uma metrópole.

Eles atravessaram a cidade. Enfrentaram trânsito, radares e viadutos. Demorou tanto que verificou se não tinham atravessado o país. Tibúrcio deixou Raquel na porta da festa, despediu-se com um "divirta-se!" e dirigiu 40 minutos de volta para sua doce e confortável casa.

Ao estacionar na garagem, veio o primeiro ato da tragédia. Tibúrcio tateou o bolso direito. Nada. O esquerdo. Vazio. O console do carro. Apenas um chiclete velho. Foi então que o flashback o atingiu como um trem: Foi então que a imagem do abacate de pelúcia sorrindo para ele de cima da mesa de Raquel surgiu como uma assombração. Ele havia tirado as chaves do bolso para não furar o estofado do sofá e as deixara exatamente ali, em cima da mesa de centro dela.

— Não pode ser — murmurou ele para o volante. — Eu sou um gênio do mal contra mim mesmo.

Tibúrcio não tinha a chave de casa, mas Raquel tinha a chave da casa dela... que estava na bolsa dela... na festa... na Zona Norte.

Ele virou o carro e cruzou a cidade novamente. Enquanto dirigia, o GPS parecia rir dele, recalculando rotas para o inferno logístico. Chegou à festa esbaforido. Raquel estava no meio da pista de dança, segurando um copo de caipirinha, quando viu o rosto pálido de Tibúrcio entre os globos de luz.

— Esqueceu o quê? — gritou ela por causa do som alto.

— Minha chave! No seu sofá! Me dá a chave da sua casa! — implorou ele.

Ela, rindo dele, entregou o molho de chaves. 

Tibúrcio saiu correndo, atravessou a cidade pela terceira vez (agora voltando para a Zona Sul) para entrar na casa dela. Ele abriu a porta, resgatou suas chaves sagradas no sofá e sentiu um alívio momentâneo. 

Mas o destino é um roteirista cruel. Logo a percepção cruel o atingiu: Ele agora estava com a sua chave, mas estava com a chave de Raquel. E ela precisaria delas para entrar em casa.

Ele suspirou, olhando para o relógio que já marcava quase alta horas da madrugada, saiu bufando de raiva consigo mesmo. Oh, destino cruel!

Lá foi Tibúrcio, pela quarta vez, atravessar a metrópole rumo à Zona Norte. O sol ameaçava dar as caras no horizonte. Ele dirigia com os olhos ardendo, ultrapassando caminhões de lixo e entregadores de jornal. A essa altura, ele já conhecia cada buraco do asfalto. Chegou na festa, devolveu as chaves para uma Raquel já levemente alterada pelo álcool. Apenas acenou dizendo: 

“Aqui... sua chave... “ — ele mal conseguia articular as palavras.

“Ah, valeu! Você é um anjo, um herói ou um idiota, ainda não decidi".

“Meu reino por uma cama, Raquel. Não aguento mais dirigir.”

Finalmente, Tibúrcio fez a quinta e última viagem da noite. Cruzou a cidade de volta para sua casa. 

Ao inserir a chave na fechadura, ele quase chorou de emoção. Entrou, trancou a porta, colocou as chaves no chaveiro da porta, e foi dormir.

No dia seguinte, acordou com uma mensagem de Raquel: 

"Oi! Você viu meu celular? Acho que ficou no seu carro quando você me deu carona..."

Tibúrcio, ainda sonado: 

“Isto é piada, não é? Nem que os porcos criem asas, vou sair desta cama pra ver!” 

Apenas desligou o aparelho e voltou a dormir.
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

O Porquê dos Livros


O relógio de carrilhão da Biblioteca Infinita bateu treze vezes, um horário que só existe no plano das letras. Entre estantes que sumiam nas nuvens de poeira dourada, três figuras se materializaram ao redor de uma mesa de carvalho maciço.

José de Alencar, com sua barba fidalga e postura ereta de quem ainda acredita no Império, ajustou o monóculo. À sua frente, Clarice Lispector, envolta em uma aura de mistério e fumaça de um cigarro invisível, olhava para o nada como se decifrasse o DNA do silêncio. Ao lado dela, Monteiro Lobato, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquieto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente.

— A biblioteca é o pulmão da civilização — começou Alencar, com a voz empolada. — Sem o registro da alma de um povo, de suas raízes e de seu solo, o homem é apenas um náufrago sem bússola. Meus livros buscaram isso: dar ao Brasil uma certidão de nascimento, desde as selvas de O Guarani até os salões do Rio.

Lobato soltou uma risada curta, quase um latido.

— Certidão de nascimento, Alencar? Ora, o povo não quer saber de certidões, quer saber de progresso! O livro é uma ferramenta, um martelo para quebrar as correntes da ignorância. Se eu não tivesse colocado o Visconde de Sabugosa para explicar o mundo, ou a Emília para questionar até a gramática, o Brasil ainda estaria lendo manuais de etiqueta enquanto o petróleo jorra debaixo dos nossos pés!

Clarice, que até então parecia feita de pedra, moveu os olhos lentamente para Lobato. Sua voz veio baixa, vinda de um lugar profundo.

— O mundo não se explica com petróleo, Monteiro. Nem com martelos. O livro... o livro é um ferimento que a gente toca para saber que está vivo. Eu não escrevo para ensinar, nem para fundar nações. Eu escrevo porque o silêncio dói e eu preciso dar um nome a essa dor.

— Mas Clarice, minha cara — interveio Alencar, inclinando-se para frente. — A forma! A estética! O livro deve ser o espelho da nobreza. Em Iracema, eu dei à língua portuguesa o perfume das matas. O livro é importante porque eleva o espírito através da beleza.

— Beleza? — Lobato interrompeu, gesticulando para as prateleiras. — Beleza não enche barriga de criança, nem tira o país do atraso. O livro para o mundo tem que ser o despertar da imaginação crítica. Uma criança que lê sobre o Picapau Amarelo hoje é o cientista que descobre a cura de uma praga amanhã. O livro é fermento! Sem ele, a massa humana não cresce, fica um pão murcho.

Clarice soltou uma pequena nuvem de fumaça espiritual.

— Vocês falam do país, da ciência, da história. Mas o que importa o petróleo ou a nação se, quando você apaga a luz, você não sabe quem é aquela pessoa refletida no espelho? Meus livros são importantes porque são espelhos quebrados. Cada caco reflete uma angústia. O mundo só se salva se cada um se encontrar no labirinto de si mesmo. O livro é o fio de Ariadne que nos leva para dentro, não para fora.

— Mas para onde iremos se não tivermos uma identidade comum? — questionou Alencar, quase ofendido. — Se eu não tivesse escrito sobre o sertão e a corte, seríamos apenas uma cópia pálida da Europa. O livro cria a pátria!

— A pátria é uma invenção de quem tem medo da solidão — retrucou Clarice, com um sorriso enigmático. — A única pátria real é a língua. E a língua é traiçoeira. Ela falha quando a gente mais precisa. Escrever é o esforço de dizer o que não pode ser dito.

Lobato bateu na mesa, fazendo um tinteiro pular.

— Pois eu digo o que deve ser dito! E digo com clareza! O livro é o melhor amigo do homem, mas só se ele o fizer pensar. Se um livro não causar uma revoluçãozinha que seja na cabeça de quem lê, ele serve apenas para calçar pé de mesa. Meus livros são convites à insolência. O mundo precisa de mais Emílias e menos bacharéis!

Alencar suspirou, alisando a barba.

— Somos três cegos descrevendo o elefante. Eu vejo a majestade do animal, sua história e sua pele. Monteiro vê a força do bicho para puxar o arado do progresso. E você, Clarice... você vê o medo que o elefante sente da própria sombra.

— Talvez — disse Clarice, levantando-se. — Mas o elefante só existe porque alguém, um dia, teve a coragem de sentar e escrever a palavra "elefante" no papel.

— Nisso concordamos — assentiu Lobato, subitamente calmo. — Um país se faz com homens e livros.

— E com o mistério que há entre as letras — concluiu Clarice.

As luzes da biblioteca piscaram. O carrilhão bateu a décima quarta hora. Os três escritores, em um último aceno de respeito literário, dissiparam-se entre as estantes, deixando para trás apenas o cheiro de papel antigo, café e uma leve brisa de mar de Copacabana. 

Na mesa, restava apenas uma página em branco, esperando que o próximo habitante do mundo decidisse, afinal, por que os livros importam.

Imagem: Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Fábula da Lâmpada Mágica


À beira de uma praia deserta, dois amigos de longa data, Zeca e Cido, caminhavam sob o sol quente quando algo brilhou na areia. Era uma lâmpada de bronze, antiga e descascada.

Cido, o mais apressado, limpou o objeto e, num estalar de dedos, um gênio surgiu entre fumaças azuis.

— Por terem me libertado, concederei um único desejo que valerá para os dois — trovejou a entidade. — Mas cuidado: o desejo deve ser escolhido em comum acordo até o pôr do sol, ou a lâmpada desaparecerá.

Cido, cujos olhos já brilhavam com a cobiça, gritou imediatamente:

— Quero uma montanha de ouro! Seremos os homens mais ricos do mundo, Zéca! Pense nas festas, nos palácios e no poder!

Zéca, porém, sentou-se na areia e olhou para o horizonte.

— Cido, o ouro traz ladrões e preocupações. Se tivermos uma montanha de ouro, nossa amizade morrerá na disputa por cada grama. Eu prefiro desejar uma fonte eterna de saúde e paz. Com o corpo são e a mente tranquila, podemos trabalhar e conquistar o que quisermos, sem medo.

A discussão começou. Cido chamava o amigo de tolo; Zéca chamava o outro de imprudente. O sol começou a beijar o mar, tingindo o céu de laranja. A ganância de um não cedia à cautela do outro. Cido queria o mundo aos seus pés; Zéca queria o mundo dentro de si.

Quando o último raio de sol sumiu no oceano, o gênio soltou uma gargalhada profunda e desapareceu, levando a lâmpada consigo para as profundezas. Os dois ficaram ali, parados na areia escura, com as mãos vazias. Tinham perdido a oportunidade não porque o gênio era ruim, mas porque a ambição de um e a intransigência do outro impediram o equilíbrio.

Moral: 
A oportunidade perdida por falta de entendimento é o maior prejuízo que dois amigos podem sofrer; a teimosia em querer tudo impede que se ganhe o essencial.

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Fábula da Onça e o Macaco


A Onça, ainda com a barriga roncando após o fracasso com o Boi, avistou o Macaco saltitando nos galhos baixos de uma ingazeira. Sabendo que não conseguiria subir tão alto com seu peso, ela resolveu encenar um drama.

Deitou-se no chão, cobriu-se com algumas folhas secas e começou a soltar gemidos lancinantes. O Macaco, curioso por natureza, parou em um galho seguro e perguntou:

— Que lamento é esse, Dona Onça? Está com dor de dente ou mordeu a língua?

— Ai de mim, Compadre Macaco! — choramingou ela, com a voz enfraquecida. — O destino foi cruel. Fiquei cega de um olho e perdi as forças das pernas. Estou aqui estirada, esperando a morte chegar. Mas antes de partir, queria confessar meus pecados a alguém sábio como o compadre e pedir que me ajude a tirar um espinho que cravou bem na ponta do meu nariz.

O Macaco, que não era bobo, desceu um pouco, mas manteve a distância de um salto.

— Mas Dona Onça, se eu chegar perto do seu nariz, o seu pecado de comer macacos vai falar mais alto que a sua vontade de morrer!

— Imagine só! — disse a Onça, fingindo uma tosse seca. — Não tenho forças nem para espantar uma mosca. Chegue perto, coloque a mão no meu focinho e sinta como estou fria. É o fim...

O Macaco, então, pegou um longo galho seco, desceu até o chão e, mantendo os pés prontos para a fuga, cutucou a orelha da Onça com a ponta da madeira. A Onça, achando que era a mão do Macaco, deu um bote certeiro e feroz no pedaço de pau, estraçalhando-o com as presas.

O Macaco, já no topo da árvore em um piscar de olhos, deu uma risada escandalosa:

— Ora, Dona Onça! Para quem está morrendo, a senhora tem um apetite muito vivo! O espinho no seu nariz deve ser o cheiro do meu couro que a senhora não consegue esquecer!

A Onça, furiosa por ter mordido madeira seca, sumiu no mato enquanto o Macaco celebrava sua esperteza.

Moral: 
A curiosidade nos leva ao perigo, mas a cautela nos tira dele; nunca teste a bondade de quem sempre viveu da maldade.

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Fábula da Onça e o Boi


Houve um tempo em que as matas eram governadas pelo respeito, mas a fome da Onça Pintada costumava falar mais alto que qualquer diplomacia. 

Certa tarde, nas bordas de um riacho, ela encontrou o Velho Boi, um animal imenso, de chifres pontiagudos e couraça de couro curtido pelo sol de muitos pastos.

A Onça, em vez de saltar, decidiu usar a astúcia. Ela sabia que aquele bicho era forte demais para um embate direto.

— Compadre Boi — disse ela, lambendo as patas — ando cansada de caçar. Que tal se fizéssemos um pacto de paz? Eu protejo o seu pasto de outros predadores, e o senhor, em troca, me guia até onde os bezerros mais jovens se escondem.

O Boi, que mastigava seu capim com uma calma de monge, nem sequer parou a ruminação. Olhou para a Onça com seus grandes olhos úmidos e respondeu:

— Dona Onça, a sua proposta parece generosa, mas o meu couro é grosso justamente porque aprendi a ler o brilho nos olhos de quem me cumprimenta.

A Onça insistiu:

— Ora, veja como estou magra! Se eu quisesse briga, já teria saltado. Vamos selar o acordo com um abraço?

O Boi, então, deu um passo à frente e baixou a cabeça, apontando seus chifres colossais para o peito da Onça.

— O abraço que a senhora quer é o da fome, e o que eu tenho para oferecer é o da defesa. Se a senhora está magra, é porque os outros animais também aprenderam que a paz de um predador dura apenas até a próxima digestão.

Percebendo que não venceria o Boi nem no cansaço e nem no papo, a Onça rosnou e desapareceu na mata fechada. O Boi voltou ao seu capim, sabendo que a vigilância é o preço da liberdade.

Moral: 
A natureza de quem trai não muda com belas palavras; a prudência é a melhor defesa contra falsas amizades.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Viagem ao Passado


1. A Praça 

Antigamente, a praça principal não era apenas um endereço; era o coração pulsante da cidade, um palco onde a vida desfilava sem pressa. Hoje, olhar para trás é perceber que o tempo tinha outra textura, menos frenética e mais humana.

A praça era o destino inevitável. Cercada pelo coreto central, de onde a banda da cidade soprava marchinhas e valsas nas noites de domingo, ela exalava um perfume misto de pipoca doce e jasmim. O chão de mosaico, desenhado com ondas e formas geométricas, servia de pista para o "footing": os rapazes caminhavam em um sentido, as moças no outro, e os olhares se cruzavam no meio do caminho sob a vigilância discreta das matronas sentadas nos bancos de ferro.

Não havia Wi-Fi, mas a conexão era absoluta. As notícias chegavam pela boca do povo, entre um gole de café no bar da esquina e uma engraxada de sapatos. As crianças corriam em volta do chafariz, indiferentes ao mundo lá fora, enquanto os velhos senhores, com seus chapéus de feltro e rádios de pilha, discutiam política e o tempo como se fossem donos de ambos.

Ao cair da tarde, as luzes dos postes de ferro começavam a piscar, tingindo a praça de um dourado nostálgico. Era o sinal de que a missa das sete iria começar ou que o cinema de rua abriria suas portas pesadas. A praça era o nosso espaço comum, onde a riqueza e a pobreza se sentavam no mesmo banco para ver a lua nascer.

Hoje, as praças mudaram, mas a memória daqueles dias ainda resiste no balanço das árvores centenárias que, felizmente, continuam de pé. Recordar é, de certa forma, voltar para aquele banco de madeira e esperar o tempo passar, apenas para ver a vida acontecer.

2. As ruas

As ruas não eram apenas caminhos de passagem; eram extensões das nossas casas, territórios de liberdade moldados em terra batida ou paralelepípedos cinzentos. 

Hoje, quando olhamos para o asfalto liso e impessoal, é difícil não sentir saudade daquela textura irregular que ditava um ritmo de vida muito mais humano e vagaroso.

O silêncio das manhãs era raramente interrompido pelo motor de um carro antigo. Eram máquinas pesadas, de metal reluzente, algumas ainda com o charme rústico da partida na manivela, exigindo força e paciência do motorista. O movimento era tão escasso que o ronco de um motor ao longe servia de aviso: dava tempo de parar a brincadeira, ir para a calçada, acenar para o vizinho e só então retomar o que realmente importava.

E o que importava era o jogo. As calçadas eram arenas de grandes campeonatos de bolinha de gude. Meninos agachados, com o olhar atento e a pontaria calibrada, disputavam "caras" e "biroscas" como se fossem tesouros nacionais. Quando o sol baixava, o cenário mudava para o pega-pega, onde o fôlego parecia infinito e a rua inteira era o campo de batalha.

Mas o ápice da engenharia infantil eram os carrinhos de rolimã. Construídos com tábuas de construção e rolamentos conseguidos em oficinas mecânicas, eles transformavam qualquer ladeira em uma pista de Fórmula 1. O barulho do aço contra o paralelepípedo era o som da adrenalina. O freio? Muitas vezes era a sola do sapato ou, na pior das hipóteses, o próprio joelho. Os joelhos ralados eram medalhas de honra, lavados com água e sabão sob o olhar benevolente das mães que vigiavam da janela.

Havia uma segurança silenciosa que pairava no ar. As portas ficavam encostadas, e o perigo parecia algo distante, de outro mundo. 

À noite, o cenário pertencia aos casais. Caminhavam de braços dados, sem pressa, em um tempo onde a conversa não era interrompida por notificações de celular. O único brilho vinha dos postes amarelados e das estrelas, que pareciam muito mais nítidas sem a poluição luminosa das metrópoles modernas.

A rua antigamente era uma escola de convivência. Entre uma queda de rolimã e uma vitória na bolinha de gude, aprendíamos sobre o mundo, sobre os vizinhos e sobre nós mesmos.

3. Os Cafés

Entrar em um café era como atravessar um portal para um tempo onde a elegância e a palavra tinham um peso sagrado. Hoje, com a pressa dos copos descartáveis, olhar para trás revela o café não apenas como bebida, mas como a moldura social de uma época.

Os grandes estabelecimentos, como o histórico Café Girondino em São Paulo ou o centenário Café Lamas ou a Confeitaria Colombo no Rio, eram palcos de um desfile de distinção. De um lado, homens com ternos impecáveis e chapéus bem ajustados discutiam o destino do país e os rumos do comércio entre uma baforada de charuto e um gole de café preto. Do outro, mulheres com vestidos luxuosos e luvas de seda traziam a sofisticação das capitais europeias para o coração das cidades brasileiras.

Mas a magia acontecia na diversidade de seus cantos:

O Balcão: Onde o encontro era rápido, mas não menos intenso. Era o lugar do "café em pé", das notícias trocadas entre conhecidos e do barulho rítmico das xícaras de porcelana batendo no mármore.

As Mesas de Mármore: Onde o tempo parava. Amigos de longa data se reuniam em grupos ruidosos para celebrar a vida, debater literatura ou simplesmente deixar a tarde passar.

A Xícara como Elo: Seja o "café passado" no coador de pano ou o expresso nascente, a fumaça que subia da xícara era o sinal de que uma conversa importante estava prestes a começar.

Nesses locais, a arquitetura de azulejos antigos e balcões de madeira nobre contava histórias de décadas passadas. Era um território de segurança e convivência, onde a futilidade e o intelecto se sentavam à mesma mesa, unidos pelo aroma inconfundível do grão moído na hora.

Hoje, essas memórias resistem em locais que preservam a atmosfera de 1875 ou 1920, lembrando-nos de que a vida, assim como um bom café, deve ser apreciada em pequenos e pausados goles.


Ao fecharmos as cortinas desse cenário — entre os acordes do coreto, o estalo do rolimã no paralelepípedo e o tilintar das xícaras de porcelana —, percebemos que o que realmente saudamos não é apenas o passado, mas a profundidade das relações que ele abrigava.

A praça, a rua e o café formavam um santuário da presença humana. Eram tempos em que o "olho no olho" não era um esforço, mas a regra; onde a segurança vinha da vizinhança que se conhecia pelo nome e a elegância se manifestava tanto no corte de um terno quanto na gentileza de um "bom dia".

Hoje, embora o asfalto tenha coberto a terra e a pressa tenha silenciado o balcão, essas lembranças permanecem como bússolas. Elas nos recordam que, por trás de toda tecnologia e correria, ainda somos aqueles mesmos seres que buscam um banco de jardim para descansar e uma boa conversa para se sentir em casa. Que a nostalgia desses dias não seja um lamento, mas um convite para resgatarmos, sempre que possível, a doçura de viver um minuto por vez.

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles p...