segunda-feira, 2 de março de 2026

Ecos do Deserto = 8. O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.

Diz-se, que vivia em uma cidade entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa e sete filhos.

Certa manhã, após lançar suas redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel de ferro preso a uma laje de mármore branco.

Ao puxar o anel, a laje se abriu, revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de coral e o chão de pérolas brutas.

No centro do salão, repousava um Gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam como brasas.

— "Não tema, mortal," trovejou o Gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de cristal. Ele contém a Água da Verdade. Quem a beber verá o mundo como ele é, e não como os homens o pintam."

Abdallah, embora cercado de ouro, pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou para ajudar os injustiçados. 

Quando um mercador rico acusou um órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.

A fama do "Pescador da Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que sussurravam lisonjas, quis testar o homem.

— "Pescador," disse o Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me: quem em minha corte é meu maior inimigo?"

Abdallah derramou a última gota na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.

Como recompensa, o Sultão nomeou Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra, mas no que a verdade liberta.

Obrigado por estarem comigo nesta história. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 7. O Caçador do Silêncio


"
Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

Lá, ele encontrou um "Dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

"Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

"Shukran" (Obrigado), murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 6. O fim do mundo


"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), buscadores do horizonte. Preparem o coração, pois esta história atravessa dunas que nenhum mapa ousa registrar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes conto sobre a busca de um homem que não se contentava com o que os olhos podiam ver.

"Bismillah" (Em nome de Deus), partamos para além das fronteiras.

Havia um homem chamado Ziad, um "musafir" (viajante) incansável. Ele já havia visto as pirâmides do Egito e os jardins suspensos, mas uma pergunta o consumia: "Onde termina o mundo?". 

Ele acreditava que, no fim de tudo, encontraria uma muralha de cristal ou o próprio jardim do éden.

Ziad despediu-se de sua família com um "fi amanillah" (fique com a proteção de Deus) e caminhou para o leste. Ele cruzou rios impetuosos e montanhas que tocavam o céu. 

Em cada aldeia, perguntava: "Falta muito para o fim?". 

Os anciãos sorriam e diziam: "Maktub" (Está escrito), "o fim está onde o coração descansa".

Ziad não entendia. Ele caminhou por quarenta anos. Seus cabelos tornaram-se brancos como a neve do Líbano e suas sandálias foram trocadas cem vezes. Um dia, exausto, ele chegou à beira de um oceano infinito, onde o sol mergulhava em águas douradas. "Ya Allah" (Ó Deus), gritou ele, "finalmente cheguei ao fim do mundo!"

Ali, ele encontrou um eremita que vivia em uma caverna. 

"Shukran" (obrigado) por me receber, disse Ziad, "concluí minha jornada".

O eremita, rindo suavemente, apontou para o mar. 

"Vês aquele horizonte? Se navegares até lá, encontrarás outra terra. E se caminhares por essa terra, voltarás exatamente ao lugar de onde partiste. O mundo é um círculo, meu filho. Ele não tem fim, pois a criação de Deus é infinita em sua perfeição."

Ziad caiu de joelhos. 

"Alhamdulillah" (louvado seja Deus), murmurou. 

Ele percebeu que passara a vida fugindo do "huna" (aqui) para buscar o "Lá", sem notar que a beleza estava em cada grão de areia que pisara. O "fim do mundo" era, na verdade, o momento em que ele parasse de procurar fora o que já possuía dentro: a paz.

Ziad voltou para sua casa, não mais como um buscador, mas como um sábio. Ele ensinou que a vida não é uma linha reta até um abismo, mas uma dança em torno do que é sagrado.

"Shukran" por caminharem comigo nesta narrativa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 5. O Tapete do Destino


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), almas curiosas. Aproximem-se, pois o fio que vou tecer agora é feito de astúcia e de uma coragem que nem as tempestades de areia podem apagar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes contarei como a mente de uma mulher pode ser mais afiada que a espada de um mameluco.

"Bismillah" (Em nome de Deus), comecemos a urdir esta trama.

Nas montanhas do Atlas, vivia uma jovem chamada Layla, famosa por seus tapetes que pareciam capturar as cores do pôr do sol. 

Um dia, um adivinho sombrio passou por sua aldeia e, ao olhar para a palma de sua mão, sentenciou: "Maktub (Está escrito): Antes que a próxima lua cheia se ponha, a pobreza baterá à sua porta e levará sua última gota de esperança."

Layla sentiu o frio do medo, mas não se curvou. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), pensou ela, "se o destino é um tecido, eu sou aquela que segura a agulha."

Ela não parou de trabalhar. Em vez de lamentar, Layla começou a tecer um tapete diferente de tudo o que já fora visto. Era um tapete de "Kohl" (negro profundo), mas com fios de seda que brilhavam como prata sob a luz da lua. Nele, ela não desenhou flores ou figuras geométricas, mas sim o mapa das estrelas e os segredos do vento.

Quando a lua cheia chegou, o Destino, personificado na figura de um cobrador implacável enviado por um mercador ganancioso, bateu à sua porta. 

"Vim levar seus teares e sua casa por dívidas que seu pai deixou", disse o homem com voz de pedra.

Layla, com um sorriso calmo, disse: 

"Ahlan wa Sahlan" (Seja bem-vindo). "Antes de levar tudo, peço que avalie esta peça única. É o Tapete do Tempo. Dizem que quem pisa sobre ele pode ver o futuro, mas apenas se o seu coração for puro."

O mercador, movido pela ganância e pela curiosidade, pisou no tapete. Layla, com sua habilidade de tecelã, havia criado uma ilusão de ótica com os fios de prata; ao se mover sobre eles, o mercador sentiu como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés, revelando um abismo de estrelas. Assustado e acreditando estar diante de uma magia poderosa que punia os gananciosos, ele caiu de joelhos.

"Perdoe-me!" gritou o homem. "Afwan" (perdão)! "Fique com tudo, apenas me deixe sair deste feitiço!"

Layla permitiu que ele fugisse. Ela não havia mudado o que estava escrito nas estrelas, mas mudou a forma como o mundo a via. A pobreza nunca entrou naquela casa, pois sua fama de "Sábia dos Tapetes" atraiu viajantes de todo o "Magrebe" (Ocidente Árabe), que pagavam fortunas para ouvir seus conselhos enquanto ela tecia.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a inteligência é o presente mais precioso dado aos mortais. O destino pode escrever a primeira linha, mas somos nós que terminamos a estrofe.

"Shukran" (Obrigado) por me ouvirem sob este manto de estrelas. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 4. A Verdadeira Riqueza

 

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus atentos amigos. Sentem-se mais perto, pois o segredo que vou lhes contar agora é como o almíscar: quanto mais se espalha, mais doce se torna o ambiente. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje as estrelas nos guiam até o Cairo, onde as areias guardam lições que o ouro não pode comprar.

"Bismillah" (Em nome de Deus), abramos o cofre do conhecimento.

Havia um jovem chamado Karim que, ao ficar órfão, recebeu de seu pai uma herança incomum: uma pequena bolsa de couro contendo apenas três moedas de cobre e um pergaminho que dizia: "Estas são as moedas da sabedoria. Use-as quando o caminho escurecer e a dúvida for sua única companheira."

Karim, decepcionado, pois esperava joias ou propriedades, partiu para a grande cidade para tentar a sorte. 

No caminho, encontrou um ancião sentado à beira de uma estrada empoeirada. 

"Ya Waladi" (meu filho), disse o velho, "estou com fome e não tenho nada além de conselhos para vender."

Karim, movido por compaixão, entregou a primeira moeda de cobre. 

O velho sorriu e disse: – "Nunca tome uma decisão importante enquanto a raiva governar seu sangue." 

Karim guardou a frase e seguiu.

Mais adiante, em um mercado movimentado, ele viu um homem errante sendo injustiçado. Ele entregou a segunda moeda a este homem, que era um sábio errante que fora confundido com um ladrão. 

O sábio lhe disse: – "A verdade dita no momento certo vale mais que mil orações em silêncio."

Por fim, ao chegar às portas de um palácio onde se buscava um novo conselheiro para o Vizir, Karim encontrou um mendigo cego. 

"Inshallah" (Se Deus quiser), disse o mendigo, "você encontrará o que busca se ouvir o que o coração dita e não o que o ego grita." 

Karim deu sua última moeda e o mendigo sussurrou: – "A verdadeira riqueza é o que você dá, pois é a única coisa que levará para o túmulo."

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensou Karim, sentindo-se estranhamente leve. Ao entrar no palácio, ele não tentou impressionar o Vizir com títulos ou mentiras. Quando o Vizir perguntou o que ele trazia para oferecer ao reino, Karim contou as três lições.

O Vizir, cansado de bajuladores que só queriam ouro, viu em Karim a clareza de um oásis. 

"Shukran" (Obrigado), disse o governante, "você não trouxe moedas de metal, mas moedas que nunca perdem o valor." 

Karim tornou-se o conselheiro mais respeitado da região, provando que a herança de seu pai era, de fato, a maior de todas as fortunas.

Que a sabedoria seja sempre a vossa moeda de troca mais valiosa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 3. A Procura da Felicidade

"Salaam’Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus diletos ouvintes. Vejo que a chama da curiosidade ainda brilha em vossos olhos! Pois bem, ajustem seus turbantes e prestem atenção, pois esta história é um bálsamo para as almas inquietas. Eu sou Mustafá, o peregrino, e lhes contarei sobre o Sultão que possuía tudo, menos o que realmente importa.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos no palácio da reflexão.

Havia outrora, na magnífica cidade de Damasco, um Sultão chamado Harun, cujas riquezas eram tão vastas que seus tesoureiros perdiam o fôlego apenas tentando contá-las. Seus jardins tinham fontes de água de rosas e suas mesas transbordavam com as iguarias mais raras de "Al-Mashriq" (O Oriente). No entanto, Harun vivia com o semblante fechado. Nada lhe dava prazer. 

"Ya Allah" (Ó Deus), suspirava ele, "tenho o mundo aos meus pés e, ainda assim, meu coração é um deserto seco."

Sentindo-se definhar, o Sultão convocou os sábios mais renomados. Após muitos debates, um velho "Hakim" (Sábio) aproximou-se e disse: 


"Majestade, o vosso mal tem cura. Deveis encontrar um homem verdadeiramente feliz, pedir-lhe a camisa e vesti-la por uma noite. A felicidade dele passará para vós através do tecido."

O Sultão, esperançoso, enviou seus mensageiros por todos os cantos. 

"Shukran" (Obrigado), diziam eles ao interrogar os mercadores ricos, mas estes reclamavam dos impostos. Procuraram os generais vitoriosos, mas estes temiam as conspirações. Procuraram os poetas famosos, mas estes sofriam por amores não correspondidos. Ninguém era plenamente feliz.

Certo dia, um dos mensageiros passava por uma colina árida quando ouviu uma risada cristalina e uma canção de louvor que subia aos céus. Era um humilde pastor de cabras, sentado à sombra de uma tamareira.

"Sabah al-Khair" (Bom dia), saudou o mensageiro. "Diga-me, bom homem, você é feliz?"

O pastor sorriu, e sua alegria era como o sol do meio-dia. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), respondeu ele. "Tenho o ar para respirar, o leite das minhas cabras e a paz de quem nada deve a ninguém. Sou o homem mais feliz que caminha sobre a areia!"

O mensageiro, exultante, gritou: 

"Rápido! O Sultão precisa da sua camisa! Daremos a você uma bolsa de ouro em troca!"

O pastor começou a rir ainda mais alto, uma risada que ecoava pelas rochas. Ele abriu seu manto surrado e, para o espanto do mensageiro, por baixo dele não havia nada. O homem mais feliz do reino era tão pobre que sequer possuía uma camisa.

Ao receber a notícia, o Sultão Harun finalmente compreendeu. A felicidade não era algo que se pudesse vestir ou comprar; ela não estava nas sedas, mas na ausência de desejos desnecessários. 

Ele distribuiu parte de sua riqueza aos necessitados e, pela primeira vez em anos, sorriu de verdade.

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós entenderemos que a camisa da felicidade é feita de gratidão, não de fios de ouro. 

"Shukran" (Obrigado) por me acompanharem em mais esta jornada. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 2. A Força do Amor


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra.

"Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece.

Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. 

No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um "sihr" (feitiço) cruel.

Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno.

Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". 

O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo.

Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão.

Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. 

"Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!"

Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. 

"Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu".

"Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Ecos do Deserto = 8. O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso

"Salaam’aleikum" ( Que a paz esteja convosco ) , meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma his...