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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Chave da agonia


Esta é a saga de Tibúrcio, um homem cuja memória tem o tempo de vida de uma bolha de sabão e cuja paciência foi testada pelo destino em uma noite de sábado.

Era um sábado. Passou na casa de sua amiga, Raquel, para um "café" rápido. O plano era simples: ele estacionava, subia, tomava um café, jogaria conversa fora e depois a levava em seu carro até uma festa no extremo sul da cidade. Ele morava no extremo norte. Entre eles, havia um oceano de asfalto, semáforos inteligentes que pareciam ter raiva dele e o trânsito caótico de uma metrópole.

Eles atravessaram a cidade. Enfrentaram trânsito, radares e viadutos. Demorou tanto que verificou se não tinham atravessado o país. Tibúrcio deixou Raquel na porta da festa, despediu-se com um "divirta-se!" e dirigiu 40 minutos de volta para sua doce e confortável casa.

Ao estacionar na garagem, veio o primeiro ato da tragédia. Tibúrcio tateou o bolso direito. Nada. O esquerdo. Vazio. O console do carro. Apenas um chiclete velho. Foi então que o flashback o atingiu como um trem: Foi então que a imagem do abacate de pelúcia sorrindo para ele de cima da mesa de Raquel surgiu como uma assombração. Ele havia tirado as chaves do bolso para não furar o estofado do sofá e as deixara exatamente ali, em cima da mesa de centro dela.

— Não pode ser — murmurou ele para o volante. — Eu sou um gênio do mal contra mim mesmo.

Tibúrcio não tinha a chave de casa, mas Raquel tinha a chave da casa dela... que estava na bolsa dela... na festa... na Zona Norte.

Ele virou o carro e cruzou a cidade novamente. Enquanto dirigia, o GPS parecia rir dele, recalculando rotas para o inferno logístico. Chegou à festa esbaforido. Raquel estava no meio da pista de dança, segurando um copo de caipirinha, quando viu o rosto pálido de Tibúrcio entre os globos de luz.

— Esqueceu o quê? — gritou ela por causa do som alto.

— Minha chave! No seu sofá! Me dá a chave da sua casa! — implorou ele.

Ela, rindo dele, entregou o molho de chaves. 

Tibúrcio saiu correndo, atravessou a cidade pela terceira vez (agora voltando para a Zona Sul) para entrar na casa dela. Ele abriu a porta, resgatou suas chaves sagradas no sofá e sentiu um alívio momentâneo. 

Mas o destino é um roteirista cruel. Logo a percepção cruel o atingiu: Ele agora estava com a sua chave, mas estava com a chave de Raquel. E ela precisaria delas para entrar em casa.

Ele suspirou, olhando para o relógio que já marcava quase alta horas da madrugada, saiu bufando de raiva consigo mesmo. Oh, destino cruel!

Lá foi Tibúrcio, pela quarta vez, atravessar a metrópole rumo à Zona Norte. O sol ameaçava dar as caras no horizonte. Ele dirigia com os olhos ardendo, ultrapassando caminhões de lixo e entregadores de jornal. A essa altura, ele já conhecia cada buraco do asfalto. Chegou na festa, devolveu as chaves para uma Raquel já levemente alterada pelo álcool. Apenas acenou dizendo: 

“Aqui... sua chave... “ — ele mal conseguia articular as palavras.

“Ah, valeu! Você é um anjo, um herói ou um idiota, ainda não decidi".

“Meu reino por uma cama, Raquel. Não aguento mais dirigir.”

Finalmente, Tibúrcio fez a quinta e última viagem da noite. Cruzou a cidade de volta para sua casa. 

Ao inserir a chave na fechadura, ele quase chorou de emoção. Entrou, trancou a porta, colocou as chaves no chaveiro da porta, e foi dormir.

No dia seguinte, acordou com uma mensagem de Raquel: 

"Oi! Você viu meu celular? Acho que ficou no seu carro quando você me deu carona..."

Tibúrcio, ainda sonado: 

“Isto é piada, não é? Nem que os porcos criem asas, vou sair desta cama pra ver!” 

Apenas desligou o aparelho e voltou a dormir.
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

As Sombras da Solidão

 

(a crônica abaixo, infelizmente, são fatos comuns hoje em dia, alguns elementos a mais fazem parte desta história, mas boa parte deles fazem parte do cotidiano de muitos outros idosos)

Seu nome é Lúcio, um homem que aos 71 anos de idade, vive sozinho em uma pequena casa no interior do Paraná. Para muitos, sua vida pode parecer simples ou até mesmo pacata. Mas, para ele, cada dia é uma batalha silenciosa contra a solidão. Durante mais de uma década, sua única companheira tem sido Sol, uma cadela, que, com seu olhar amoroso e sua presença constante, é a única luz nesta escuridão.

Dezembro chega com a sua fanfarra de luzes cintilantes e sorrisos forjados, uma estação de rádio que só toca a melodia da sua solidão. A proximidade das festas de final de ano não traz alegria; traz uma maré crescente de desânimo e uma depressão silenciosa que se senta com ele à mesa de jantar vazia. Uma onda de melancolia toma conta. É uma época em que todos parecem se reunir; os sorrisos, as luzes, os abraços calorosos. Mas ali, dentro das quatro paredes de sua casa, a realidade é bem diferente. As ruas decoradas e cheias de vida contrastam bruscamente com o vazio do seu lar. Seus familiares, que vivem longe em outro estado, nunca vêm para o visitar. Suas desculpas são sempre as mesmas: “Não posso agora; estou ocupado”, “O trânsito é terrível nessa época”, “É muito longe”. A verdade, que ele já conhece, é que não há espaço para ele na vida deles.

Desde a morte de sua mãe, sete anos atrás, sentiu como se um pano escuro tivesse sido puxado sobre sua existência. Ela era seu porto seguro, a única que o entendia sem precisar de palavras. Com a sua partida, um pedaço dele se foi, e com ele, a conexão com o resto da família. Ele só queria um toque humano, uma palavra amiga, alguém que dissesse que se importava. Mas, em vez disso, o eco do silêncio se tornou seu único familiar.

O casamento com Clara não sobreviveu ao peso das expectativas e dos sonhos desfeitos. Quando conversava com ela, sentia o abismo entre eles, maior que qualquer distância física. Ela fala com um tom sereno, mas em suas palavras há uma nota de superioridade que o fere, quase como se ele fosse um projeto inacabado em comparação aos seus sucessos. Por Lúcio não ter um diploma universitário, a seus olhos era apenas um homem que fracassou em vários aspectos da vida. Ela tem o seu diploma universitário, a sua carreira, a sua vida estruturada, e não perde a oportunidade de lhe fazer sentir a sua falta de instrução. As conversas são um exercício de paciência; ela fala sobre as conquistas e seu trabalho, e ele escuta, tentando encontrar sua voz entre as lembranças que a cercam. Em dias como esses, a saudade se mistura com um profundo desânimo. É uma dança estranha: enquanto ela compartilha sua vida, ele é um espectador, preso em polaroides de um passado que não consegue mudar. Apesar disso, se mantém conectados, a sua conexão distante com o resto do mundo. Neste momento, ela é a ponte que liga seu presente ao passado, embora ele saiba que essa ponte balança sob o peso de suas frustrações.

Sol, por outro lado, não se importa com diplomas ou conquistas. Para ela, ele é suficiente. Quando olha nos olhos dela, percebe que, apesar da dor e da solidão, é amado de uma maneira pura e verdadeira. Ela não sabe das cicatrizes que ele carrega, dos fantasmas que habitam a sombra de sua vida. Para ela, não importa se o Natal não terá presentes, árvores decoradas ou ceias fartas. O que importa é estarem juntos, no calor do seu pequeno lar, onde ele faz o melhor que pode para garantir que ela se sinta amada tanto quanto ele sente.

Refletindo sobre todos esses anos, recorda de um tempo em que também foi pai. Sua filha, que não viveu o suficiente para conhecer o mundo, deixou uma cicatriz que nunca se apagará. Ela foi brutalmente levada dele com apenas alguns meses de vida, O destino, porém, tinha planos cruéis. A sua menina, a sua preciosa filha, foi-lhe tirada de forma brutal, assassinada com apenas alguns meses de vida. Suas esperanças, sonhos e anseios se desfizeram em um instante, como se um vendaval tivesse passado e levado tudo que ele mais amava. A dor foi insuportável. A mãe da menina, a mulher que ele amava, afundou na escuridão da sua própria dor. A perda dela foi o último golpe, e ela decidiu que não queria mais viver, preferindo a escuridão eterna à dor insuportável da realidade. Enquanto a via partir, entendeu que a vida era feita de uma montanha-russa de alegrias e tristezas, mas ele parecia viver só a parte mais pesada da queda, deixando-o num desespero que ainda hoje molda o seu ser. Esse capítulo da sua vida é uma ferida que nunca cicatriza, um lembrete constante da fragilidade da felicidade.

Agora, aqui está, um homem de 71 anos que vive cercado por sombras do passado. À medida que o Natal se aproxima, as memórias se tornam mais intensas: o cheiro da comida que sua mãe preparava, os cafés à tarde, as brincadeiras que ecoavam pela casa, o calor dos abraços de sua esposa. Essas lembranças são tanto o seu consolo quanto a sua condenação. O tempo não apagou a dor, ele apenas a tornou parte de quem é.

Nesta véspera de Natal, enquanto Sol se aconchega ao seu lado no sofá, sente a solidão se instalar ao seu redor. Neste momento, não tem presentes para dar. Não há árvores cheias de enfeites, nem laços coloridos. Passarão as festas juntos, no silêncio da sua casa, observando o mundo lá fora celebrar uma união que não lhes pertence. Ao invés disso, o que há é a promessa de mais um dia juntos, uma certeza que, apesar de tudo, traz um leve sorriso aos seus lábios. Ao olhar pela janela, as luzes piscantes da cidade não lhe atraem mais. Em vez de lembrar do que perdeu, sente uma alegria ainda que transitória de estar com seu amor maior, sua cadela Sol.

Percebe que, mesmo sem a presença da família, tem Sol, sua única família presente, verdadeira, que sempre estará ao seu lado, com seu amor incondicional. Ela é a única razão pela qual ainda levanta da cama todos os dias. Ela é o seu raio de sol que lhe aquece as manhãs.

Eles, na certa, se aconchegarão em um canto do sofá, com um filme antigo na televisão e o coração esperançoso, mesmo que ligeiramente quebrado. Porque a vida, com todas as suas durezas, ainda tem seus pequenos momentos de alegria. E enquanto Sol estiver ali, ele não estará completamente sozinho.

Ah, como gostaria de viver por um momento, a festa que tanto anseia. Mas o que ele tem é uma xícara de chá e a alegria simples que Sol traz para os seus dias.

Afinal, Lúcio e Sol são uma dupla imbatível, navegando em mares de solidão. E quando der meia-noite na certa ficarão deitados lado a lado como dois seres que se amam muito e esperando o sono os levar a um mundo de sonhos, de felicidade, de amor, de amizade, de espíritos livres.

No final, o que mais poderia desejar além disso? Um amor simples, uma amizade leal, e a esperança de que um dia, as sombras do passado possam dar lugar a dias mais iluminados. Para ele, isso deve ser suficiente.
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os nomes foram modificados para preservar suas identidades
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), . Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fonte: José Feldman. Caleidoscópio da Vida. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2025.
Imagem obtida com Microsoft Bing

domingo, 2 de novembro de 2025

Nick


 Há animais cujo lugar no mundo é tão certo quanto a gravidade: não é preciso entender como se dá o milagre, basta vê-los existir e todo o resto se rearranja para fazer sentido. Nick nasceu em Ubiratã em 15 de novembro de 2003, fruto do encontro entre a Biba — Ayllin, mãe amorosa — e o Branco (Cotton Candy), que também tinha no gesto o carinho fácil. Do par saiu apenas um filhote, como se a sorte tivesse decidido concentrar uma história inteira num só corpo felpudo. Era pequeno e era urgente: um pedaço de ternura pronto para incendiar a casa.

Logo cedo ficou evidente que, apesar do amor de mãe e do afeto do pai, Nick corria o risco de se sentir sozinho. O Branco e a Biba davam o colo e amor, mas brincar é coisa que multiplica quando há pares, e para um filhote a presença de um outro companheiro é escola e porto. Aos três meses, pensando nisso, levei-o para junto do Nino — que tinha só dois meses a mais e sem lar fixo, a Nuhtara o acolhera —, pedindo à Nuhtara que o aceitasse como parceiro de traquinagens. Nuhtara acolheu, e o duo encontrou uma vida compartilhada: Nick parou de procurar e começou a habitar. Dormia com a mãe, brincava com o Nino, e a casa começou a ter outro compasso, um compasso de patas e de disputa por atenção.

Niquinho, como o chamávamos com um antegozo de afeto, era dupla natureza: doce e, ao mesmo tempo, um encrenqueiro de marca maior. Se uma briga entre gatos surgia, era quase certo que Nick estaria no centro. Não por maldade — muitas vezes por uma curiosidade maluca, pela coragem de testar limites ou só por gostar de provocar. A casa era um palco e ele, um ator que gostava de roubar cenas. Quatro meses mais tarde nasceram três gatas, filhas da Biba com o Negão (Cookie), e o pequeno então passou a conviver mais ainda com as irmãs: era comum ver o sofá tomado por um balaio de gatas, um amontoado de corpos, e o Nick no meio, aninhado como se fosse sempre a melhor posição do mundo.

A castração veio como tentativa de alívio às inquietações: esperávamos que, como em muitos gatos, a cirurgia temperasse a cabeça. O procedimento teve uma complicação — a veterinária conseguiu apenas uma castração parcial porque um dos testículos não foi encontrado, pequeno demais para ser localizado. Pensamos que mesmo assim ele se acalmaria; não foi o caso. Continuou aprontando, às vezes até no colo de quem o abraçava. Lembro-me de uma transgressão que aconteceu algo grave o suficiente para que eu o prendesse numa corrente numa casinha no banheiro, para que pudesse usar a bandeja; coloquei comida e água, e ali o deixei choroso. As irmãs, fiéis, iam até lá e se encolhiam junto com ele, transformando a solidão numa reunião de lealdades. Aquela tarde me apertou o peito; senti culpa e compaixão ao mesmo tempo, e acabei soltando-o. Sua prisão tinha sido um erro que me lembrou de como somos falhos e de como amar também é corrigir a si mesmo.

Mesmo depois disso, o Nick continuou suas artes: olhos azuis que encantavam quem visitava, um olhar que prendia e hipnotizava; um corpo pequeno e, às vezes, doentinho. Sofria com um problema respiratório que se agravava no frio, e por isso os cuidados eram redobrados quando as noites ficavam mais ásperas. Ainda assim, era presença constante no colo — à noite era costume tê-lo e às meninas aconchegados em nossas pernas, uma mancha de calor e conforto. A Nikita, sua irmã, estava sempre ao lado; os dois eram quase inseparáveis, e a imagem deles lado a lado é uma das que mais me acompanha quando penso nos dias de casa cheia.

O Nick tinha, enfim, a mistura rara de teimosia e vulnerabilidade: um pequeno briguento com ar de conspirador e o corpo que pedia mimos contínuos. Era querido com uma intensidade que se dava nas pequenas coisas — um arranhar leve para pedir a atenção, um salto mal calculado que virava riso, a maneira como aceitou ser amado mesmo quando aprontava. Era sentimento que se distribuía sem economia, e por isso o calor que restou depois de sua ausência não é só saudade, é também um registro do quanto ele foi importante para as rotinas, para os lares daqueles que o receberam.

Quando nos mudamos para Maringá, não foi possível levar todos; uma conhecida ofereceu-se para cuidar dele. Na época, Nick tinha oito anos e cinco meses. Depois disso, as notícias deixaram de chegar. Sei que sua saúde sempre fora frágil, e a incerteza sobre seus últimos dias pesa em mim como perguntas sem fim. Não sei quanto mais viveu — talvez pouco, talvez o suficiente. A possibilidade de que a fragilidade tenha ditado um fim breve é algo que me acompanha com um nó no peito; ainda assim, prefiro imaginar que, mesmo sob cuidados alheios, ele teve alguém que gostasse dele, que enxugasse seu miado e oferecesse um colo quando o frio raspava as frestas do corpo.

O que fica, ao fim, é a imagem do garotinho que dividia o sofá com um bando de meninas peludas, o filhote de olhos azuis sempre pronto para arranjar confusão; a cena do colo noturno onde ele e as meninas se aninhavam; a lembrança da cirurgia imperfeita e do erro meu de afligi-lo quando a impaciência falou mais alto. Fica também a certeza de que amamos, durante todos aqueles anos, um ser que nos devolveu amor em plena intensidade — nas travessuras, nas noites de doença, nas manhãs de afago.

Há um tipo de saudade que é presença: ela aparece como imagem, som e cheiro — o sopro do Nick, o silêncio entre as gatas, o vazio no canto preferido do sofá. Às vezes penso na Nikita, que tanto gostava dele, e imagino os dois juntos novamente, em algum lugar onde brigas não deixam marcas e a respiração se faz suave. Se a vida nos deu a sorte de compartilhar um pedaço dela com o Nick, então o preço que pagamos em apreensão e em perda é, de algum modo, o tributo de quem amou.  

Até sempre, Niquinho — pequeno grande encrenqueiro de olhos azuis. Que onde quer que estejas, haja alguém para amar-te e umas tantas travessuras para recontar.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Nuhtara Dahab


 Ela era pura guerreira,
ímpar em sua bravura.
Deixou na hora derradeira
um arco-íris de ternura.

Há nomes que entram na casa como quem anuncia uma história inteira; Nuhtara Dahab foi um desses nomes — um nome em árabe que eu escolhi com a mesma naturalidade com que damos apelidos aos que já nascem prontos para habitar nossas vidas. “Chuva dourada”, pensei, pela pelagem que, sob a luz, refletia um sol dourado. Veio para nós em Curitiba, era siamesa, e desde os primeiros passos — já mãe, já carregando uma promessa de filhotes — mostrou que não se acomodaria em papel de coadjuvante. Entrou, sim, para mandar.

Nasceu em 20 de outubro de 1999. Tímida, ela cruzou com o gato angorá Floco de Neve (Floquinho) que vivia conosco. Nasceu então, pouco depois de sua chegada à nossa casa, um parto difícil que nos deixou em vigília: Cookie e Cotton Candy chegaram entre sustos e cuidados. Nuhtara, que parecia pequena e delicada, mostrou ali uma força primitiva: a paciência de quem segura o mundo com uma pata e a segurança de quem sabe fabricar afeto. Mais tarde, teve a Goldie — uma filha que era a cara da mãe, “cuspida e escarrada” como quem repete traços e jeitos num gesto de fidelidade genealógica.

Ela foi mãe de muitos gestos. Havia nela uma doçura específica: carinhosa com os filhotes, vigilante, sempre atenta aos sinais de fome e de perigo. Mas o cuidado de Nuhtara ia além da sua prole: com o tempo se tornou mãe adotiva do Nino, um filhote que, abandonado e pequeno, foi acolhido por ela com um desejo quase visceral de amamentar. Já não tinha leite, mas o corpo e o coração resolveram produzir novamente; foi como se a maternidade tivesse em Nuhtara a força de um ato de fé. Ela o alimentou, abrigou e deu um lar que precisava do seu sossego.

Nuhtara cresceu e se impôs líder. Em nossa casa, que chegou a ter — mais tarde — quinze gatas, ela fez-se referência. Não governava com violência, mas com autoridade: um miado baixo e rouco, quase inaudível, bastava para restabelecer a ordem quando a algazarra crescia demais. Lembro como, nos momentos de maior confusão felina, era aquele miado — uma nota grave, carregada de realeza — que silenciava o rebanho todo. O silêncio que se seguia era absoluto, respeitoso, quase reverente. Se havia hierarquia, ela a encarnava com naturalidade: as outras queriam ficar sob as patas dela, protegidas e guiadas.

Havia em Nuhtara um gênio peculiar. Era geniosa, tinha as marcas de uma princesa que aceita afeto, mas impõe distância. Não gostava de colo — não porque fosse desligada, mas porque guardava seu afeto em medidas próprias; oferecia carinho sem se submeter, oferecia aconchego sem abdicar da autonomia. Quem cruzasse seu caminho indevidamente podia receber um aviso: rosnados, perguntas felinas, olhos que mudavam de doçura a suspeita em um segundo. Teve gente que vinha à casa com receio dela; Nuhtara respondia com postura, e a casa parecia, por dentro, um reino que ela zelava.

Era guardiã: lá fora, a cadela protegia o mundo; dentro, o domínio era dela. A casa tinha sua assinatura. Visitantes lembravam-se: “ali tem uma gata que olha de cima e decide se você merece carinho.” Era engraçado e impressionante ao mesmo tempo. Ela tinha essa aura de autoridade que não se impunha com gritos, mas com presença.

Houve episódios que ficaram como pequenas epopeias domésticas. Em Ubiratã, lembro de um dia em que ela, numa das suas passagens curiosas pelo quintal, subiu numa calha do telhado e entalou-se ali. O som que vinha era um miado muito baixo, angustiado — e era do telhado, indecifrável. Subi a escada e a vi, presa naquela calha estreita, olhos miúdos pedindo ajuda. Foi preciso tirar a calha para libertá-la; o gesto simples — de mãos sujas e coração apertado — ficou marcado: Nuhtara, imponente na vida cotidiana, também aceitava ser salva. Era cena curiosa porque ela, que era tão comportada em muitos momentos, ousara uma aventura que terminou com a a paciência nossa para salva-la.

Ao longo dos anos, ela acumulou títulos: mãe corajosa, líder dos gatos, guardiã mascarada. Era espécie de mãe de confianças felinas, e sua presença tinha textura — o roçar discreto das patas, o ronronar raríssimo, os olhos que mediam e compunham princípios. Não era exigente, mas demandava respeito; não fazia exigências, fazia presença. Quando simpatizava, era ternura; quando não, era prontidão: ai de quem a enfrentasse.

O declínio começou só nos últimos anos, como se o tempo fosse tirando o vigor dela com uma paciência meticulosa. Aos 16 anos, Nuhtara começou a definhar. Aquilo que antes era autonomia e altivez transformou-se em fragilidade. Tive de lhe dar comida na boca; seus passos ficaram mais curtos, os saltos mais raros. Mas havia uma cena que me acompanhou como lição: Nikita, uma gata que não era filha biológica, filha da Ayllin, assumiu o cuidado com ela. Nikita que, em hierarquias, poderia ter sido desqualificada, mostrou-se cuidadora de verdade; algo de comunidade ficou claro: a casa, povoada por gatos com histórias, cuidava dos seus. Nuhtara, mesmo quando fraca, tinha ao redor a gentileza de quem reconhece quem deu tudo.

Faleceu em Maringá no dia 16 de março de 2016, quase 17 anos depois de seu nascimento. “Vaso ruim não quebra”, dizem, com um sorriso que mistura ironia e ternura; nela, a sentença foi verdadeira: viveu longa, cheia de acertos e recuos, com a marca de uma vida que soube impor limites e distribuir afeição. Quando se foi, deixou um silêncio — não o silêncio respeitador de seus miados, mas o vazio contundente de um lugar que já não se preenche de jeito nenhum. A casa perdeu uma cor, uma cadência, uma escala própria de autoridade felina.

Sinto falta do miado baixo que vinha como metrônomo nas manhãs mais confusas; da maneira como ela deslizava pelos cantos como uma pantera, sempre com a expressão de quem pensa e decide; da sua recusa em ser pega no colo e, ao mesmo tempo, da generosidade com que permitia que pousássemos a mão em seu dorso quando ela consentia. Sinto falta do gesto de mãe que adoçou estranhos — como quando passou a fazer leite para Nino e o alimentou; não por obrigação, mas por uma inclinação que beirou o milagre.

Houve medo em quem veio à nossa casa, respeito em quem a conheceu. Havia também agradecimento, porque numa casa barulhenta, cheia de outras gatas e da vida que os animais imprimem, Nuhtara era a linha que organizava o caos. Era triste ver a cor diminuir; era consolador saber que ela partia tendo sido inteira até o fim — inteira em sua altivez, inteira em sua capacidade de ser mãe e guardiã.

Escrever sobre ela é tentar juntar as pontas de uma vida que foi feita de pequenos reinados. Nuhtara Dahab não foi apenas uma gata siamesa que viveu quase 17 anos; foi uma lição sobre como ser presença: sem exigência, com autoridade; sem abrir mão do afeto, com a condição de que ele fosse oferecido nos termos dela. Ficou o legado — a lembrança dos miados baixos que calavam a casa inteira, a história da catástrofe da calha e do resgate, os contos de suas maternidades e adoções, e a imagem do olhar dela, sempre questionando, sempre avaliando.

Quando fecho os olhos, lembro-a deslizando pela sala, o dorso comprido brilhando, e imagino-a em algum lugar onde reina do jeito que gostava: altiva, com as patas em posição de esfinge, purificando o meio ambiente, decidindo quem merece um afago. E se há saudade, ela vem misturada com respeito: porque Nuhtara ensinou que, numa família numerosa de vozes, é possível haver um silêncio que organiza. Que seja esse silêncio — e essa lembrança — a graça que me toca quando penso nela.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Fluffy



Há nomes que, ao serem ditos, já trazem dentro de si um universo inteiro — barulhento, desarrumado, cheio de pelos e de risadas. Fluffy era um desses nomes. Nasceu em Curitiba, no dia 5 de junho de 2000, filho da Maya, a nossa Akitora que reinava com passo largo e presença inquestionável. De uma ninhada de sete, Fluffy foi o que ficou conosco. Os outros seis partiram rápido, doados com fila à porta graças à fama materna: havia história demais por trás daquele sangue branco e negro — lembravam-se todos de quando a Maya tinha pegado um ladrão no muro da casa no Pilarzinho, naquele Carnaval em que estávamos fora da cidade. A reputação da mãe abria portas.

Mas Fluffy vinha com um patrimônio próprio: a travessura de nascença. Ele era pilantra num nível quase mitológico. Tinha no sangue a curiosidade inquieta do Border Collie e no corpo a habilidade atlética que fazia dele um saltador e um planejador nato. Se havia um portão aberto, uma brecha, um pedaço de tecido ao vento, Fluffy descobria como ninguém. A casa era seu palco e o mundo, sua plateia.

Lembro bem das primeiras fugas: o portão da garagem não era obstáculo para sua perspicácia. Ele escapava com a naturalidade de quem sai para visitar um amigo, corria até o quintal vizinho — onde havia um cachorro e um gato com quem criara laços de confabulação — e voltava só quando achava adequado. Foram nessas andanças que ele contraiu parvovirose, e por quase uma semana o vimos pendular entre a vida e a morte, prisioneiro de tubos e esperas no veterinário. Era angustiante: cada hora parecia um portal entre o possível e o irremediável. Sobreviveu — e como todo sobrevivente, voltou com uma intensidade ainda maior. O gato vizinho, personagem fiel da sua história, ia todo dia até o nosso portão e chamava por ele, numa insistência comovente que fazia a gente sorrir e ficar alerta. Colocamos grades; batemos o pé; colocamos supervisão. Fluffy aprendeu? Aprendeu um pouco. Mas a regra dele era pintar o sete.

Mudamos para Ubiratã, cidade pequena a uns setenta quilômetros de Cascavel, e Fluffy trouxe com ele o mesmo espírito. Saltava o muro — um muro que para nós parecia enorme, para ele era um degrau — e ia visitar vizinhos, roubava panos de chão com destreza de quem encontra tesouro e, em dias de chuva, não perdia a oportunidade de transformar uma loucura em lambança. A vizinha lavava o fundo do quintal, ele fazia a festa; quem pagava o pato éramos nós, e a bronca vinha com a mesma regularidade das broncas. E quando retornava para casa, sua mãe e irmã mais nova não poupavam as broncas.

Havia algo de carnavalesco na vida daquele cão: a fuga que lembro com mais clareza foi a última grande aventura. Fluffy conseguiu cavar embaixo do portão da garagem e saiu para a rua acompanhado da mãe, a Maya (na época a Mel ainda não havia nascido). Um vizinho, trabalhador de uma cooperativa, nos avisou que os vira andando pela estrada em direção a Cascavel. Tomamos um táxi de um amigo e fomos até lá. Eu e minha esposa saímos do táxi e começamos a gritar os nomes deles como quem tenta afugentar o inesperado. O desespero era verdadeiro — e, como em cena ensaiada, os dois chegaram correndo como dois furacões suados e desesperados, fazendo a maior festa possível ao nos encontrar. Aquela volta, suados e confusos, era a prova máxima de que, por mais que a gente tentasse, os corações deles batiam em sintonia.

Foi tanta travessura e tanta vida que, eventualmente, tivemos de adotar medidas mais duras: colocamos uma corrente, um arame que ia dos fundos até a frente do quintal, uns 40 metros, para limitar suas viagens. Era uma prisão com vista; um espaço suficiente para ele correr, mas que anulava as expedições épicas. Mesmo assim, ali, preso, Fluffy era calor e lama, colo e farra. Era capaz de arrancar do mais sisudo de nós um sorriso com um pulo, com uma careta, com um olho que dizia: “Você sabe que vale a pena.”

E, por baixo da bagunça, havia afeto. Fluffy pulava o muro para ir brigar com os cachorros que passavam na rua, arrumava encrenca, mas se derretia em carinho. Virava a cabeça de lado como quem pede conversa, se enroscava nas pernas, apoiava o queixo como se dissesse: “Agora, por favor, me entenda.” Fazia festa quando chegávamos, usava as patas como catavento, trazia um pedaço de pano como troféu do mundo que ele governava. Foi um desses que ensinou a família a ter paciência, a rir das falhas, a não contar recriminações na mesma moeda que contava graças.

Nos últimos anos, porém, veio a tragédia silenciosa. Uma doença nas pernas começou a imobilizá-las: primeiro as dianteiras, depois as traseiras. Caminhar deixou de ser natural; o corpo, antes instrumento de travessuras, tornou-se campo de batalha contra um mal que os exames não esclareciam. Visitamos veterinários, fizemos perguntas, demos remédios, procuramos explicações que nunca vieram. A incerteza corroía tanto quanto a doença — e talvez mais. Fluffy, que havia escalado muros com a mesma naturalidade com que escalava corações, agora via sua mobilidade se esvair. Foi uma coisa sutil e cruel: a cada dia, uma parte da liberdade ia embora.

O fim foi o mais doloroso e, para mim, o mais difícil de carregar até hoje. Tivemos de tomar a decisão de sacrificar Fluffy — um ato que, apesar de sensato e compassivo diante do sofrimento, deixou feridas abertas. Viveu 10 anos, e a nossa despedida ficou marcada por uma culpa que ainda me persegue. Eu não estava ao lado dele nos últimos instantes. Por motivos que ainda me doem admitir, não acompanhei até o fim. Até hoje peço perdão a ele por essa falha. É um peso que carrego como uma sombra: prometi estarmos juntos, e falhei no compromisso definitivo.

Essa ausência me mudou. Depois de Fluffy, fiz a escolha de estar até o último suspiro com todos os que vieram depois. Quando o fim se aproxima, segurar a pata, ficar ao lado, é a última linguagem de amor que nos é permitida. Hoje, quando toca na minha memória, lembro do Fluffy correndo, do Fluffy suado vindo da estrada, do Fluffy com lama no focinho e uma expressão de arrepiante felicidade. Lembro também do Fluffy deitado, sem forças, olhos suaves pedindo apenas presença — e lembro que falhei naquele momento decisivo.

Mas a vida não se resume a um erro, por pior que ele doa. Há também uma coleção de pequenas vitórias e de humores que se acumularam: as crianças que cresceram ouvindo histórias sobre o Border Collie que não respeitava muros; os convidados que sabiam, ao entrar, que eram vigiados por um olhar astuto; as noites em que Fluffy se acomodava junto de sua mãe como um aceno de proteção. Todas essas memórias me ensinam que o amor pelos animais não é medido apenas em presenças físicas, mas em escolhas: nos passeios que fizemos, nas correntes que colocamos por segurança, nos remédios que tentamos e nas vezes que nos levantamos à noite para ver se respirava.

Fluffy deixou marcas concretas: arranhões na alma, panos manchados que viraram lembrança, vizinhos que ocasionalmente falavam dele quando a rua lembra histórias de outrora. Deixou também uma lição prática: ensinar a cuidar até o fim. Por muitos anos depois, segurei firme na promessa de não abandonar na hora derradeira. E em cada cadela e cada gata que entrou nas nossas vidas depois dele, há um pouco do Fluffy — do jeito que nos obriga a vigiar, de como nos ensinou o valor da presença contínua.

Quando penso nele agora, vejo a imagem dele saltando o muro como se fosse um gesto de liberdade absoluta; vejo a cena dele e da Maya correndo estrada abaixo e depois a alegria da chegada; vejo-o enfiando o focinho em panos limpos e fazendo um carnaval particular na lavanderia vizinha. E, por fim, vejo o Fluffy quieto, cansado, que precisava apenas de uma mão amiga. É essa memória que me corrói e que me transforma; é ela que me faz pedir perdão toda vez que penso na hora em que não estive ao seu lado.

Escrever sobre Fluffy é, portanto, aceitar o calor da lembrança e a frescura da culpa. É contar das travessuras com o mesmo afeto com que conto da dor, porque ambos pertencem ao mesmo tecido. Ele foi pilantra e leal, parceiro de aventuras e, por fim, vítima de uma doença desconhecida até então. Viveu dez anos — dez anos intensos, barulhentos e cheios de vida. E cada um desses anos foi matéria-prima para as histórias que ainda contamos.

Hoje, quando há um silêncio na casa e a rua parece vazia, eu me pego imaginando o som de seus latidos que eu ralhava com ele pelo exagero, o sopro de sua respiração, o mesmo dos velhos tempos que jamais imaginou que uma cadela e seu filho pudessem domar uma vizinhança. Fluffy foi tudo isso: coragem em forma de cachorro, pilhéria em forma de corpo, amor em forma de latido. E se há uma dívida que guardo, ela é simples e humana: o perdão que peço por não ter estado até o fim. Ainda assim, sei que de alguma maneira ele me perdoou — porque Fluffy sabia, melhor que muitos humanos, a arte de viver e de acolher, até as nossas fraquezas.

No balanço das coisas, ele me deixou menos duro e mais pronto para ficar. E se a saudade às vezes corta como navalha, ela também aquece: porque o que foi vivido com ele foi verdadeiro, e porque, na curva das lembranças, há sempre uma imagem que me cura — a do Fluffy vindo em nossa direção no breu da estrada, suado, exausto e feliz, porque no final das contas sempre escolhia sempre estar conosco.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Maya

(Do meu livro "Minhas irmãs de quatro patas")
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Foste uma amiga, uma irmã,
foste uma luz… o calor.
No despertar da manhã
foste simplesmente… amor.

 Há lembranças que se enraízam como árvores antigas: elas crescem, fazem sombra e, quando o vento passa, deixam cair uma folha cuja textura a gente reconhece sem precisar olhar. Maya é uma dessas árvores na minha memória — uma presença que ocupou quintais, ruas, abraços e um pedaço enorme do nosso coração. Nasceu em São Paulo, capital, em 1997. Veio da mão de uma amiga, entregue como quem confia a chave de casa a alguém que sabe cuidar. E cuidar, com ela, foi aprender a grande lição de que os animais chegam para ensinar a amar.

No começo éramos ruins em cuidar de cachorros; confessar isso hoje é confessar uma ingenuidade que me envergonha e encanta ao mesmo tempo. Eu cheguei a fazer um cartaz numa venda perto de casa: doava-se a cadela, tomada numa mistura de desespero e de inexperiência. Coloquei-o ali como se arrancar o problema resolvesse também o afeto que já começava a crescer. Na manhã em que um senhor apareceu interessado, Maya chorou como quem pede para não ser trocada por um ponto final. Chamou a manhã inteira — um choro que parecia questionar a nossa lógica.

Quando um senhor tentou se aproximar, ela adotou uma postura defensiva e quase atacou; ele, visivelmente assustado, desistiu. Foi nesse instante que entendemos: ela não era de dar, era de ficar. E ficamos. Mais tarde encontramos o senhor novamente — nas ruas do bairro — e, Maya, que na manhã anterior parecera pronta a atacar, lambeu a mão dele com a mesma simplicidade com que dá à vida um sopro de perdão. A natureza dela tinha essa contradição doce: firmeza e ternura, proteção e entrega.

Maya era grande, uma mistura nobre entre Akita e Pastora Belga Albina. Eu brincava que ela era uma “Akitora” — um nome que juntava o porte imponente com a pelagem clara que lembrava neve. Majestade era, aliás, uma palavra que lhe caía bem. Caminhava como quem foi feita para ocupar espaço: passos largos, cabeça erguida, olhar que media situações. E ao mesmo tempo que era imponente, era dócil como poucas criaturas que já conheci. As crianças do bairro a adoravam. Entravam no quintal para brincar, deitavam-se ao lado dela, corriam e riam, e Maya aceitava tudo com paciência de rainha misericordiosa.

Havia, porém, um ódio irrefreável por bêbados que passavam em frente ao portão. Não tolerava esse tipo de presença; o latido que soltava nessas ocasiões não era infantil, era uma reprimenda, quase uma convocação à ordem. Quando havia algazarra de cachorros na rua, era Maya quem impunha silêncio: bastava um latido seu que as vozes mais altas pareciam se dissolver. Em todas as casas por onde vivemos — Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e finalmente Maringá — ela se tornou referência para os cães da região: Maya latia, e o bairro escutava.

Em Curitiba, teve um episódio que virou lenda entre os vizinhos. Numa época em que estávamos viajando, houve uma invasão: um ladrão subiu o muro da casa para roubar. Maya pegou esse ladrão no muro mesmo. Simples assim. Haviam rastos de sangue do ladrão no muro, com certeza no desespero de tentar se salvar. Não foi uma cena de filme; foi a realidade exemplar de uma cachorra que assumiu seu posto de guardiã com firmeza. O nome dela correu as ruas: “a Maya pegou o ladrão” — e a sensação foi de uma vitória coletiva. O mesmo ladrão, sabíamos depois, havia roubado outras casas naquela sequência de dias. Mas quando encontrou a Maya na frente, a história mudou. Ela era destemida quando necessário.

Era também uma mãe dedicada. Cruzou com um Border Collie em Curitiba e teve sete filhotes. A casa encheu de patas, de olhos curiosos e de filhotes que tinham fila para adotá-los. Ficamos com um deles; os outros foram-se rápido, porque quem a conhecia sabia que ter um filhote dela seria um privilégio. Ser mãe foi mais um dos papéis que ela desempenhou com naturalidade: havia nela uma mistura de disciplina e afeto, um código que os filhotes aprenderam rápido.

As caminhadas com ela eram, na verdade, passeios em que ela nos levava. Entre risos, sempre digo isso: era ela quem ditava o ritmo, quem escolhia o caminho, quem parava para cheirar a vida. Numa dessas ocasiões lembro de um dia em que ela disparou, e mesmo presa ao enforcador — que eu segurava firme — arrastei-me até colidir com uma árvore. Saí daquele encontro com o joelho raspado e o riso envergonhado, enquanto Maya, impassível, já queria seguir adiante. Era fiel: fazia o que queria, mas fazia junto.

Inteligente ao extremo, ela aceitava uma trapaça uma vez — talvez duas — mas não mais. Eu podia enganá-la uma vez, e ela ficaria olhando com curiosidade; na segunda vez, o olhar era de reprovação quase cômica, como se dissesse: “Qual é? Acha que sou tonta e caio outra vez?” Tinha um senso de justiça fantástico. Essa inteligência fazia dela não só uma companhia, mas uma interlocutora silenciosa: seus olhos avaliavam, ponderavam, perdoavam ou censuravam de modo claro.

O tempo foi passando e, por anos, Maya foi nossa sombra, nossa mesa redonda, nossa segurança. Em 2012 sua saúde começou a declinar. Ela ficou, aos poucos, mais quieta; os passeios diminuíram, as corridas tornaram-se raras, e ela passou a deitar mais tempo do que antes. Os sinais da velhice vinham com a mesma dignidade com que vivera: sem grande dramatização, apenas um corpo pedindo repouso. No dia 19 de abril de 2013, em Maringá, ela partiu: 16 anos que pareciam ter passado tão depressa e, no entanto, deixavam uma lenta bagagem de saudade.

Maya morreu de falência dos órgãos. Foi um fim que doeu, não apenas pela violência do corpo que se entrega, mas pela concretude da despedida depois de tantos anos de presença constante. Ela deixou descendentes: Fluffy, um Border Collie que morreu aos 10 anos em Ubiratã por doença desconhecida, e Mel, que viveu até 2019 e partiu aos 16 anos em Maringá. A linhagem dela seguiu, em parte, como quem carrega a tocha adiante.

Ainda hoje, quando fecho os olhos, a lembrança de Maya vem com cheiro de grama, de poeira da estrada e de pelo macio. Vejo sua cabeça grande encostada na minha perna, o olhar que pedia nada e dava tudo, as crianças correndo ao redor, e lembro do cartaz que pus na venda, uma prova da nossa inexperiência, e da lição que isso nos deu: não se dá alguém como Maya, ela se conquista e te conquista de volta.

Sinto falta das pequenas coisas: o jeito que ela levantava o olhar para pedir um pedaço do comida, como acompanhava cada passo quando estávamos no quintal, como deitava de lado para que as crianças subissem e se aninhassem. Sinto falta de vê-la chupando manga que pegava de nossa árvore onde moravamos, e não é que a danada pegava sempre as melhores mangas. Sinto falta das tardes que os nossos gatos brincavam com ela no quintal de casa, fazendo-a de boba. Geralmente vinha pra mim, chorosa, com um arranhado no corpo, de algum gato provavelmente. Sinto falta da segurança que a presença dela trazia nas noites, quando a casa parecia menor por fora mas completa por dentro. Sinto falta do respeito que impunha e do conforto que oferecia.

Em dias de vento forte, eu imaginava Maya no portão, vendo os bêbados passarem e decidindo, com um latido seco, que aquilo não ficaria ali. Em dias de sol, a via sendo acariciada pela luz, um corpo branco que brilhava como se tivesse pegado o próprio verão. E quando me lembro da sua inteligência e do seu humor — da soberania com que assumia as manhas e o humor com que aceitava as regras — percebo a sorte que tivemos em tê-la por perto.

Há uma saudade que é como um caminho conhecido: a gente passa por ele sempre que quer encontrar uma presença. Para mim, essa estrada leva direto a Maya. Às vezes, preso num dia comum, me surpreendo sorrindo ao lembrar da cena em que ela lambeu a mão do senhor que antes despertara seu instinto de defesa, ou do dia em que mordeu o ladrão ou ainda da vez em que a casa inteira ficou em silêncio por causa de um único latido. Essas memórias são pequenas vitórias contra o esquecimento.

Maya era muito mais do que a soma de suas ações; ela era um personagem que alterou nossa narrativa familiar. Nos ensinou a cuidar, nos policiou, fez-nos rir e, sobretudo, foi um porto. Depois que se foi, aprendemos a medir espaços: um banco na sala que parece maior, um canto do quintal que ecoa as patas, uma coleira que agora é só lembrança. A vida, com sua dureza e sua ternura, seguiu — mas com a marca dela cravada em cada gesto de cuidado que depois demos.

Escrever sobre Maya é trazer à tona não só a história de uma cadela exemplar, mas a própria história de quem aprendeu com ela. É confessar que já fomos melhores e piores, e que, diante de um animal assim, o melhor de nós e também a nossa impotência frente às vicissitudes da vida aparece. É também uma forma de agradecer: por ela ter escolhido ficar quando nossas mãos hesitaram, por ter sido dócil com as crianças, implacável com ladrões, e por ter ensinado que a lealdade é prática diária e silêncio cúmplice.

Hoje, quando falo dela, lembro-me da akitora, a raça que lhe denominei. Em seu nome, há reverência. Em qualquer lembrança, há saudade. Mas há também consolo: ela viveu muito, viveu bem, e deixou herança material e espiritual. Fluffy e Mel foram pedaços do legado; as histórias que lembramos continuam a circular; e dentro de nós, o modo de amar transformado por ela segue ativo.

Maya era majestade e afeto, cidade e quintal, guarda e companhia. Era o tipo de presença que nos ensina por imitação: você olha para ela e entende como se cuida, como se espera e como se protege. Sua vida foi um mapa de gestos que inaugurou muitos de nossos modos de agir com os animais. E a saudade — ah, a saudade — é essa árvore que inclino a cabeça para lembrar e, geralmente, chorar, um choro triste e um choro alegre. É também um carinho antigo que me aquece inesperadamente em dias frios.

Se penso em algo final que ela me deixou, é a convicção de que cuidar transforma. Fomos péssimos no início, aprendemos no caminho, e Maya foi sempre generosa com nossas falhas. Quando morreu, restou o aprendizado e o espaço que nunca mais seria igual. Hoje, aqui sentado, escrevo e vejo o sol atravessando a cortina, e, por um segundo, o brilho parece o mesmo do pelo dela. Sorrio, deixo a saudade me dominar — porque saudade, no final das contas, é prova de que houve amor, e que esse amor valeu cada passo que ela nos fez a dar ao seu lado.

Oh, minha querida Maya. Que saudade!!!

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O caleidoscópio da vida


No caleidoscópio da vida,
vitórias e derrotas…
Ficamos na torcida.

A vida, se pensarmos bem, é um caleidoscópio em constante movimento. Cada giro traz uma nova imagem, uma nova combinação de cores e formas que refletem nossas experiências. Às vezes, as combinações são vibrantes e cheias de vitórias; em outras, sombrias, carregadas de derrotas. E assim seguimos, torcendo para que as próximas voltas nos apresentem algo belo.

Certa manhã, enquanto caminhava pelo parque, fui atraído por um grupo de crianças brincando. Elas riam, corriam e se divertiam sem preocupações. Observando-as, percebi que, em sua inocência, já viviam o ciclo natural de vitórias e derrotas. Cada vez que um dos pequenos caía, havia um misto de choro e risadas, mas logo se levantavam, prontos para tentar novamente. Era um espetáculo de resiliência, uma verdadeira aula de vida.

Parei para refletir. Ao longo dos anos, quantas vezes eu havia me deixado abater por uma derrota? Às vezes, o peso da frustração é tão grande que parece impossível levantar-se e continuar. Mas, ao mesmo tempo, cada vitória, por menor que fosse, traz consigo um novo ânimo, uma nova perspectiva. O caleidoscópio da vida nos ensina isso: que a beleza está tanto nas vitórias quanto nas derrotas.

O tempo passou, e eu me lembrei de um momento específico: a época em que decidi mudar de carreira. A transição foi repleta de desafios e incertezas. Havia dias em que me sentia invencível, acreditando que tinha feito a escolha certa. Em outros, era como se um peso insuportável me esmagasse, e a dúvida corroía minha confiança. Lembrei-me de como esperei ansiosamente por cada conquista, mas também como chorei por cada porta fechada.

A verdade é que, assim como as cores em um caleidoscópio, nossas experiências são interligadas. Cada vitória é resultado de derrotas superadas, e cada derrota é uma oportunidade disfarçada. Ao torcer por nós mesmos e por aqueles que amamos, estamos, na verdade, torcendo pelo ciclo da vida — um ciclo que nos ensina a valorizar cada passo do caminho.

No parque, uma das crianças, ao cair, olhou para os amigos e, com um sorriso travesso, disse: “Vamos de novo!” Aquela frase ecoou em minha mente, e percebi que, mesmo adultas, precisamos de um pouco dessa coragem infantil. Precisamos nos permitir falhar e nos levantar, torcendo sempre por dias melhores.

Conforme o sol se punha, as cores do céu começaram a mudar, criando um espetáculo deslumbrante. A partir daquele momento, entendi que, assim como o céu, a vida é cheia de nuances. As vitórias são as manhãs ensolaradas, enquanto as derrotas são os dias nublados. Ambas são necessárias para que possamos apreciar a beleza do que temos.

Ao deixar o parque, senti-me renovado. O caleidoscópio da vida continuaria girando, e eu estava pronto para enfrentar o que viesse, seja vitória ou derrota. Afinal, cada um de nós está sempre na torcida, esperando que a próxima volta traga novas cores e formas, sempre lembrando que, no final, é a jornada que realmente conta.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais. Morou na capital de São Paulo, em Taboão da Serra/SP, em Curitiba/PR, Ubiratã/PR, Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia de Letras de Teófilo Otoni, etc, possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações de sua autoria “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); e “Canteiro de trovas”.. No prelo: “Pérgola de textos” (crônicas e contos) e “Asas da poesia”
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Os Rabugentos e a tecnologia moderna

Na praça central de Velharruda, Arlindo e Eulália estavam novamente em seu banco, prontos para mais uma discussão acalorada. Desta vez, o assunto era a tecnologia moderna, especialmente os smartphones.

— Você viu, Arlindo? — começou Eulália, balançando a cabeça. — As pessoas estão tão grudadas nesses smartphones que parecem zumbis! Não conseguem nem olhar para o lado!

— Zumbis, realmente! — Arlindo concordou, fazendo uma careta. — No meu tempo, a gente conversava cara a cara! Agora, tudo é emoji e mensagens de texto! Que tipo de comunicação é essa?

— E o pior é que não sabem nem escrever! — Eulália exclamou. — Você já viu as mensagens? “Vc é mt legal” e “bjs”! Onde foi parar o português?

— Ah, o português! — Arlindo riu, balançando a cabeça. — Eu estava lendo um livro, e a autora escreveu “k” em vez de “que”! Se fosse no meu tempo, ela teria sido expulsa da escola!

— E agora, se você não estiver nas redes sociais, é como se não existisse! — Eulália continuou, indignada. — O que aconteceu com a privacidade? Ninguém mais sabe o que é isso!

— Exato! — Arlindo concordou. — No meu tempo, a gente contava os segredos para os amigos, não para um aplicativo que pode ser raqueado! Malditos celulares!

— E você percebeu que as crianças não brincam mais na rua? — Eulália disse, gesticulando. — Elas ficam trancadas em casa, jogando e olhando para a tela! Eu não sei como eles conseguem!

— Pois é! — Arlindo concordou, com um sorriso irônico. — Eu costumava ficar horas jogando bola, não “jogando” só no celular! Se eu tivesse um celular na minha infância, acho que teria esquecido até como andar!

— E se você tivesse um smartphone na sua juventude, Arlindo? — Eulália perguntou, divertida. — Você teria tirado fotos do seu famoso “passo do relógio” e postado na internet? “Olha como eu danço, pessoal!”

— Ah, para com isso! — Arlindo riu. — Eu seria uma sensação! Mas, pensando bem, você teria sido a primeira a comentar: “Arlindo, isso é um desastre!” 

— Eu só estaria sendo honesta! — Eulália defendeu-se, com uma risada. — E você sabe que eu teria razão!

— E quem precisa de razão quando se tem um smartphone? — Arlindo disse, sarcástico. — Hoje em dia, a verdade é o que mais se “curte”!

— E não me fale dos vídeos! — Eulália exclamou. — Todo mundo quer ser “influencer”! Você já viu como eles se comportam? Fazem dancinhas ridículas e acham que são artistas!

— E o que você prefere? — Arlindo provocou. — Um vídeo de dancinha ou ouvir você cantar “Asa Branca” no karaokê?

— Ah, você sabe que eu canto bem! — Eulália respondeu, rindo. — Mas se eu fosse uma influencer, eu teria mais fãs!

— Isso se eles soubessem o que é um karaokê! — Arlindo disparou. — Dificilmente alguém hoje em dia saberia o que é se divertir sem uma tela na frente!

— E você já reparou que eles não conseguem ficar sem seus telefones por um minuto? — Eulália continuou. — Se você pedir para alguém desligar o celular, é como se pedisse para desligar a vida!

— Pois é! — Arlindo completou, balançando a cabeça em reprovação. — No meu tempo, a gente ficava horas sem precisar de nada além de uma boa conversa!

— E uma boa xícara de café! — Eulália acrescentou, com um brilho nos olhos. — Ah, como eu sinto falta das nossas conversas longas e do cheiro do café fresco!

— Então, vamos fazer isso! — Arlindo sugeriu, com um sorriso. — Vamos deixar esses smartphones de lado e tomar um café de verdade!

— Combinado! — Eulália concordou, animada. — E quem sabe, se tivermos sorte, não encontramos um zumbi ou outro pelo caminho!

Os dois velhos rabugentos riram, levantaram-se do banco e caminharam juntos em direção à cafeteria, prontos para celebrar a amizade e as boas conversas, longe das telas e da tecnologia moderna.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais. Morou na capital de São Paulo, em Taboão da Serra/SP, em Curitiba/PR, Ubiratã/PR, Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia de Letras de Teófilo Otoni, etc, possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações de sua autoria “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); e “Canteiro de trovas”.. No prelo: “Pérgola de textos” (crônicas e contos) e “Asas da poesia”
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domingo, 24 de agosto de 2025

E se for verdade?

 
Acordo, como de costume, com os primeiros raios de sol filtrando pela janela. O calor suave me envolve, e ao meu lado, Sol, minha fiel companheira, já está acordada, com aquele olhar curioso e brincalhão. Aos 70 anos, a vida me ensinou a valorizar cada instante, mesmo que a sombra do câncer tente me roubar o brilho.

Moro em uma casa isolada, longe dos amigos e da família que, por razões que nunca entendi bem, se afastaram. A solidão é uma companheira constante, mas não deixo que isso me abale. Encontro formas de lidar com esse vazio. Converso com Sol como se ela pudesse entender cada palavra. E quem sabe? Ela é a única que realmente me escuta.

Para preencher os dias, criei uma rotina. Acordo cedo, faço as tarefas de casa e preparo o café. Às vezes, ligo para amigos antigos, apenas para ouvir suas vozes do outro lado da linha. Mesmo que as conversas sejam curtas, elas me lembram de que não estou completamente sozinho. A tecnologia me ajuda a me conectar, mesmo à distância.

Hoje, decidi que iríamos dar um passeio no parque. A brisa fresca me acariciava o rosto, e Sol corria à minha frente, como se estivesse me dizendo: “Vamos, ainda há muito para viver!” O caminho até o parque não é fácil, mas a cada passo, sinto o peso da solidão diminuir. Sorrio ao lembrar de um velho amigo que sempre dizia que a vida é como um jogo de cartas: o que importa é como você joga com as cartas que tem.

Chegando ao parque, observo as crianças brincando, os risos ecoando no ar. Um dia, fui como elas, cheio de sonhos e promessas. Agora, a doença me lembra constantemente de que a vida pode ser frágil. Mas, mesmo assim, não deixo que a tristeza tome conta. A cada sorriso que encontro, a cada elogio que recebo por causa da minha cadela, sinto que ainda tenho um papel a desempenhar.

Sol, sempre brincalhona, atrai a atenção das pessoas. Ela é uma estrela, e eu, seu humilde acompanhante. Um grupo de crianças se aproxima, e, em um instante, estamos cercados de risadas e carinhos. “Ela é tão linda!” dizem, e eu me sinto grato. É nesses momentos que percebo que a vida é feita de pequenas alegrias.

À noite, quando o sol se despede e a escuridão envolve a casa, sento-me na varanda com Sol ao meu lado. O céu está cheio de estrelas, e eu me pergunto se elas também têm suas próprias histórias. É fácil se deixar levar pela melancolia, mas eu prefiro olhar para o futuro. Cada novo dia traz a possibilidade de um milagre, e enquanto eu e Sol estivermos juntos, sempre haverá esperança.

Sim, a solidão pode ser desafiadora, mas eu a enfrento com gratidão. A doença pode me minar aos poucos, mas não me destruirá. O que importa é como encaro cada manhã. O câncer pode levar meu corpo, mas nunca meu espírito. O que importa é como encaro cada manhã. A ausência de visitas me ensinou a valorizar as pequenas interações, a encontrar alegria nas coisas simples. Continuarei a ser aquele homem alto astral, sempre pronto para ajudar os outros, mesmo que minha própria luta seja dolorosa e silenciosa.

E assim, adormeço com a certeza de que, ao acordar, haverá um novo dia. Um dia para brincar com Sol, para rir com os vizinhos, para viver. Porque, afinal, a vida é isso: um conjunto de momentos, e eu escolho fazer deles os melhores que posso.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais. Morou na capital de São Paulo, em Taboão da Serra/SP, em Curitiba/PR, Ubiratã/PR, Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia de Letras de Teófilo Otoni, etc, possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações de sua autoria “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); e “Canteiro de trovas”.. No prelo: “Pérgola de textos” (crônicas e contos) e “Asas da poesia”

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Os Rabugentos e os carros do futuro

 
Na velha praça, Arlindo e Eulália estavam novamente em seu banco, prontos para mais uma discussão acalorada. O assunto do dia era a nova moda dos carros elétricos.

— Olha só, Eulália! — começou Arlindo, com um brilho cínico nos olhos. — Agora todo mundo fala de carros elétricos como se fossem a oitava maravilha do mundo! Você já viu um desses? Parecem mais brinquedo de criança!

— Brinquedo? — Eulália riu, balançando a cabeça. — Você está tão preso no passado que não consegue enxergar o futuro! Os carros elétricos são silenciosos, eficientes e ainda ajudam o meio ambiente!

— Silenciosos? — Arlindo exclamou, com uma expressão de desdém. — Prefiro ouvir o barulho de um motor potente! Isso sim é música para os meus ouvidos! Um carro sem ronco não é carro, é um... robô!

— Robô? Você está exagerando! — Eulália respondeu, cruzando os braços. — E quem precisa de barulho? No meu tempo, a gente sonhava com carros que não poluíssem! Agora, você só quer saber de roncos!

— Olha, eu não sou contra a ideia de carros que não poluam. — Arlindo disse, levantando as mãos. — Mas e a emoção de dirigir? Você já dirigiu um carro elétrico? É como andar em um sofá sobre rodas!

— Um sofá? Você realmente sabe como ofender! — Eulália respondeu, rindo. — E você se esqueceu que os carros a gasolina e álcool estão acabando? A gasolina vai virar coisa do passado!

— Coisa do passado? — Arlindo rebatou. — E o que você vai fazer quando ficar sem combustível? Pedir carona de um vizinho com um carro elétrico? Eu prefiro meu carro barulhento, que me leva a qualquer lugar!

— E eu prefiro saber que meus netos vão herdar um planeta saudável! — Eulália disse, com firmeza. — Você só pensa no presente, Arlindo! E o futuro? Vai ficar preso na nostalgia dos motores barulhentos!

— Nostalgia é uma coisa boa! — Arlindo insistiu. — E quem disse que os carros elétricos são a solução? E se a bateria acabar no meio do nada? Você vai ter que esperar uma eternidade por um carregador!

— E você, se ficar sem gasolina, vai ter que empurrar seu carro até o posto! — Eulália retrucou, com um sorriso travesso. — E não venha me dizer que isso é emocionante!

— Olha, eu não empurro carro nenhum! — Arlindo defendeu-se, rindo. — Se eu ficar sem gasolina, vou dar um jeito de arranjar um galão e encher o tanque. Não sou desses que ficam esperando um milagre!

— E quem precisa de milagre quando se tem tecnologia? — Eulália disse, fazendo uma pausa dramática. — Os carros elétricos estão mudando o mundo, Arlindo! Você deveria se atualizar!

— Atualizar? Eu não sou um computador! — Arlindo respondeu, balançando a cabeça. — E já viu o preço de um carro elétrico? Com o que custa um, eu compro três carros a gasolina e ainda sobra para uma viagem!

— Ah, claro! E depois você vai reclamar que os carros antigos estão se desintegrando! — Eulália riu. — Você só quer economizar e não se preocupa com o planeta!

Arlindo arqueou as sobrancelhas. — Economizar é uma virtude! E quem vai querer um carro que não faz barulho? Vou sair na rua e parecer um fantasma!

— Fantasma? Você já se olhou no espelho? — Eulália provocou, rindo. — Você já é um fantasma do passado, Arlindo! Aceite isso!

— Aceitar? Estou aqui, vivo e a cores! — Arlindo exclamou, gesticulando. — E se eu quiser um carro que marque presença, eu vou ter! Não quero sair dirigindo um “silencioso”, como se estivesse fugindo de algo!

— Você só está com medo do novo! — Eulália disse, com um sorriso. — Um dia, você vai ver que os carros elétricos são o futuro! E quem sabe você não acaba comprando um?

— Eu? Comprar um carro elétrico? — Arlindo riu, balançando a cabeça. — Só se você me prometer que vai me ensinar a usar um carregador!

— Oh, não se preocupe! — Eulália respondeu, piscando. — Eu vou te ensinar a usar, e você vai ver que é mais fácil do que empurrar um carro!

— Empurrar? Nunca mais! — Arlindo disse, levantando-se do banco. — Vamos tomar um café e deixar essas discussões de lado! Afinal, o que importa não são os carros!

— Concordo! — Eulália sorriu, levantando-se também. — E quem sabe, enquanto tomamos café, você não se convence de que um carro elétrico não é tão ruim assim?

Os dois velhos rabugentos se afastaram, rindo e discutindo, prontos para mais uma tarde de amizade e boas risadas, longe das preocupações sobre carros e tecnologia.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais. Morou na capital de São Paulo, em Taboão da Serra/SP, em Curitiba/PR, Ubiratã/PR, Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia de Letras de Teófilo Otoni, etc, possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações de sua autoria “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); e “Canteiro de trovas”.. No prelo: “Pérgola de textos” (crônicas e contos) e “Asas da poesia”

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles p...