Houve um tempo em que as matas eram governadas pelo respeito, mas a fome da Onça Pintada costumava falar mais alto que qualquer diplomacia.
Certa tarde, nas bordas de um riacho, ela encontrou o Velho Boi, um animal imenso, de chifres pontiagudos e couraça de couro curtido pelo sol de muitos pastos.
A Onça, em vez de saltar, decidiu usar a astúcia. Ela sabia que aquele bicho era forte demais para um embate direto.
— Compadre Boi — disse ela, lambendo as patas — ando cansada de caçar. Que tal se fizéssemos um pacto de paz? Eu protejo o seu pasto de outros predadores, e o senhor, em troca, me guia até onde os bezerros mais jovens se escondem.
O Boi, que mastigava seu capim com uma calma de monge, nem sequer parou a ruminação. Olhou para a Onça com seus grandes olhos úmidos e respondeu:
— Dona Onça, a sua proposta parece generosa, mas o meu couro é grosso justamente porque aprendi a ler o brilho nos olhos de quem me cumprimenta.
A Onça insistiu:
— Ora, veja como estou magra! Se eu quisesse briga, já teria saltado. Vamos selar o acordo com um abraço?
O Boi, então, deu um passo à frente e baixou a cabeça, apontando seus chifres colossais para o peito da Onça.
— O abraço que a senhora quer é o da fome, e o que eu tenho para oferecer é o da defesa. Se a senhora está magra, é porque os outros animais também aprenderam que a paz de um predador dura apenas até a próxima digestão.
Percebendo que não venceria o Boi nem no cansaço e nem no papo, a Onça rosnou e desapareceu na mata fechada. O Boi voltou ao seu capim, sabendo que a vigilância é o preço da liberdade.
Moral:
A natureza de quem trai não muda com belas palavras; a prudência é a melhor defesa contra falsas amizades.
Imagem: Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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