quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Visita Sacana


Texto construído tendo por base a trova de Ademar Macedo (Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN)
Chega a causar agonia, 
uma visita sacana,
que vem pra passar um dia, 
passa mais de uma semana!

Era uma vez a pacata residência de Juvenal e Lurdes, um casal que valorizava o silêncio e o café coado na hora. A paz reinava até que, numa terça-feira chuvosa, um Fiat Uno 2002 estacionou na calçada. Dele saltou o Tio Genivaldo, carregando uma mala de couro descascada e um sorriso que ocupava todo o rosto.

— Ô de casa! — gritou Genivaldo, entrando sem bater. — Só vim entregar um queijo pra Lurdes e já vou embora! Juro por Deus que é coisa de um dia só, tenho que cuidar das minhas galinhas lá em Xerém.

O "um dia" começou com Genivaldo ocupando o sofá. Na quarta-feira, ele descobriu que o chuveiro da suíte era "uma maravilha" e que a Wi-Fi do Juvenal era "mais rápida que pensamento". Na quinta, o queijo que ele trouxe — e que já estava com um cheiro suspeito — foi devorado pelo próprio Genivaldo no café da manhã, junto com meio quilo de mortadela que Lurdes guardava para o jantar.

A agonia de Juvenal começou a subir pelas paredes quando, na sexta-feira, Genivaldo apareceu na sala de cueca samba-canção, assistindo ao programa de fofoca no canal da TV.

— Genivaldo, meu querido — tentou Juvenal, com a voz tremendo de educação — as galinhas em Xerém não estão com fome, não?

— Que nada, Juvenal! Pedi pro vizinho jogar um milho. A hospitalidade de vocês é tão boa que eu até cancelei o ônibus de volta. Vou ficar pro churrasco de domingo!

O problema é que o domingo passou, a segunda chegou, e Genivaldo já estava agindo como o síndico do imóvel. Ele começou a dar palpites na cor da parede e sugeriu que Lurdes trocasse o amaciante das roupas dele, pois o atual "dava coceira nas dobrinhas".

Na quarta-feira seguinte — completando oito dias de "um dia só" — a casa estava em estado de sítio. Juvenal e Lurdes sussurravam na cozinha como conspiradores.

— Ele instalou uma rede na varanda, Juvenal! — choramingou Lurdes. — Ele disse que a luz da manhã é boa pra tratar a sinusite!

— Calma, mulher. Tenho um plano.

Naquela noite, Juvenal desligou o disjuntor da casa e começou a tossir perto de Genivaldo, dizendo que a casa estava com uma infestação de cupins carnívoros e que a vigilância sanitária chegaria ao amanhecer para dedetizar tudo com um gás tóxico, porém "muito eficiente".

Bastou uma menção a "gás tóxico" para Genivaldo pular da rede. Em menos de dez minutos, a mala de couro estava fechada.

— Olha, gente, adoro vocês, mas lembrei que esqueci o ferro de passar ligado lá em Xerém! — mentiu o Tio, saindo em disparada para o Fiat Uno sob o luar.

O silêncio finalmente voltou. Juvenal suspirou, sentou no sofá agora livre e recitou para a esposa:

— Viu, Lurdes? Visita é igual a peixe: depois de três dias, começa a cheirar mal. Mas essa aí já estava virando bacalhau!

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