O bombeiro, seu Clemente,
no boteco, faz seu jogo,
já se apaga, na aguardente,
combatendo o próprio fogo!
Esta é a história de Clemente, um homem que levava seu ofício tão a sério que a linha entre o dever profissional e o lazer pessoal era mais fina que um fio de mangueira velha.
Clemente era o sargento mais respeitado do destacamento local. Em trinta anos de carreira, ele nunca tinha deixado uma labareda para contar história. Mas, como dizem os colegas de farda, "quem muito lida com brasa, um dia busca o gelo". E o gelo do Clemente vinha sempre mergulhado em um copo de cristal legítimo (ou de requeijão, dependendo da pressa) no Boteco do Almeidinha.
Toda sexta-feira, exatamente às 18h02, Clemente entrava no bar com a postura rígida de quem vai salvar um orfanato. Ele não pedia uma dose; ele anunciava uma ocorrência.
— Almeida! — bradava ele, batendo no balcão. — Relato de incêndio nas mucosas! Preciso de intervenção hídrica de alto teor alcoólico, agora!
Almeida, que já conhecia o protocolo, nem perguntava. Sacava a garrafa da "Marvada", uma aguardente que, se caísse no chão, corroía o azulejo, e servia o sargento. Clemente olhava para o copo com a seriedade de um perito criminal.
— Veja só, Almeida... — dizia ele, girando o líquido transparente. — O fogo, ele começa silencioso. É uma queimação no peito, uma secura na alma que só a unidade de elite da caninha de Alambique pode debelar.
O primeiro gole era o que Clemente chamava de "Ataque Direto". Ele jogava a cachaça garganta abaixo sem piscar. A expressão no rosto dele passava por sete estágios de dor e três de iluminação espiritual.
— Fogo controlado no esôfago! — exclamava ele, com os olhos lacrimejando. — Mas ainda sinto focos de calor na região do fígado. Mande mais um caminhão-pipa!
Lá pela quarta dose, Clemente já não era mais um bombeiro; ele era o próprio incêndio. O rosto estava vermelho como um caminhão da corporação, e o nariz brilhava como uma sirene em alerta máximo. Era o momento em que ele começava a "fazer seu jogo".
O "jogo" do Clemente consistia em tentar convencer os outros bêbados de que ele estava, na verdade, trabalhando. Se um cliente acendia um cigarro, Clemente gritava:
— Cuidado com o retorno de chama! Mantenha a ventilação tática!
Se alguém pedia uma cerveja gelada, ele intervinha:
— Negativo! O choque térmico pode comprometer a estrutura do seu bueiro gástrico! Fique na aguardente, que mantém a temperatura estável!
A situação atingiu o ápice na noite em que o Almeida serviu uma porção de linguiça flambada na mesa ao lado. Quando o garçom riscou o fósforo e o prato subiu em chamas azuis, o instinto de Clemente falou mais alto.
Ele não tinha uma mangueira, mas tinha um copo de 300ml de cachaça pura na mão.
— INCÊNDIO DE PROPORÇÕES CATASTRÓFICAS! — urrou Clemente.
Em um movimento heroico (e completamente desastroso), ele arremessou o conteúdo do copo — cachaça de 45 graus — diretamente sobre a linguiça em chamas.
O resultado não foi a extinção do fogo. Foi uma explosão termobárica de botequim. A labareda subiu até o teto, chamuscou as sobrancelhas do Almeida e derreteu o ventilador de teto. O bar inteiro entrou em pânico, enquanto Clemente, cambaleando mas firme, tentava abafar as chamas com o próprio chapéu.
Dez minutos depois, com o fogo apagado (graças a um extintor de verdade usado pelo segurança), Clemente estava sentado no meio-fio, com a farda desalinhada e um cheiro de churrasco de algodão.
Seu capitão, que passava por ali por coincidência, parou o carro e olhou a cena:
— Clemente? O que aconteceu aqui, homem? Você está todo chamuscado!
Clemente olhou para o superior com a dignidade que resta a um homem que acabou de travar uma guerra contra o próprio fígado e perdeu para uma linguiça. Deu um soluço que quase acendeu o ar ao redor e recitou, com voz pastosa:
— Capitão... o dever me chamou. O fogo estava em todo lugar... no bar, na mesa e, principalmente... aqui dentro. — Ele deu um tapinha na barriga. — Mas pode ficar tranquilo. O bombeiro Clemente... já se apaga... na aguardente... combatendo o próprio fogo!
E assim, Clemente foi levado para casa, não em um caminhão de bombeiros, mas no banco de trás de um táxi, ressonando tão alto que parecia uma sirene ligada, finalmente em paz com o seu "incêndio" particular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário