sexta-feira, 6 de março de 2026

Ecos do Deserto = 10. A Cidade dos Sonhos


"Salaam’aleikum" (que a paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos domínios do invisível.

Diz a lenda que, no coração do deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse decidido descansar nelas.

Muitos "musafirun" (viajantes) tentaram encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de uma lua de prata, avistou os portões da cidade.

"Ya Allah" (Ó Deus), exclamou ele ao atravessar as portas. 

Dentro da cidade, não havia comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco, mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes. 

"Ahlan wa Sahlan" (bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento nas palmeiras.

Porém, havia uma regra: ninguém poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal. Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a mão, só havia poeira comum.

A cidade desaparecia ao amanhecer porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções. "Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o lucro, mas o propósito. 

Yusuf passou o resto de seus dias contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de quem conheceu a eternidade em uma única noite.

A lição, meus caros, é que as coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas na alma. 

"Shukran" (obrigado) por compartilharem este silêncio comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

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