domingo, 15 de março de 2026

Ecos do Deserto = 12. Origens do Lobo Branco

A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

Mas escute bem, pois de todos os homens que conheci sob a cúpula do céu, nenhum possui o nome tão gravado nas estrelas quanto Aldhiyb Al-Abyad, o Lobo Branco.

— "E quem é este homem?", perguntareis vós.

Ele nasceu em um vilarejo de pedras brancas no sopé das montanhas de Hadramaut, onde o ar cheira a incenso e as cabras saltam entre abismos. Aldhiyb não tinha o sangue dos califas, mas dizia-se que sua mãe, ao dar à luz sob um eclipse lunar, viu um lobo de pelos níveos uivando para o mar, embora o oceano estivesse a muitas jornadas de distância.

Aldhiyb viveu sua juventude como um pastor de ovelhas, um homem do deserto que lia o destino no voo dos falcões. Ele era de poucas falas, mas de olhos que pareciam guardar o reflexo de espelhos distantes. Sua vida era o silêncio das dunas, até que a Grande Seca devorou os pastos e transformou o gado em ossos ao sol.

Sem nada além de uma túnica gasta e a coragem dos desesperados, ele caminhou até o porto de Aden. Lá, diante da imensidão azul que ele nunca imaginara existir, Aldhiyb não sentiu medo. Ele viu os navios balançando como berços e percebeu que as ondas eram apenas dunas que se moviam.

Ele foi parar no mar por um lance de dados do destino: ao tentar salvar um marinheiro bêbado de uma briga de taverna, acabou sendo levado para bordo do Vento do Amanhã como remador de última hora. Foi nas galés, entre o suor e o sal, que o pastor das montanhas tornou-se o senhor das águas. Ele não navegava para fugir da terra, mas para encontrar o que o deserto lhe havia prometido em sonhos: o mistério que existe além do horizonte.

Assim começou, ó Rei, a lenda do Lobo Branco, que trocou o cajado pelo leme e as ovelhas pelas ondas.

Saiba, ó Rei, que o mercado de Bagdá é o umbigo do mundo, onde o ouro de Gana encontra a seda da China e onde se vende de tudo, até o que não se pode tocar. Foi ali, entre o aroma de açafrão e o grito dos camelos, que Aldhiyb Al-Abyad viveu seu encontro mais sombrio antes de se tornar o senhor dos mares.

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