quinta-feira, 26 de março de 2026

“JOGANDO PÉROLAS AOS PORCOS”

Sinto um peso no peito que não vem do cansaço da pesquisa, mas de uma decepção profunda. O meu ensaio sobre a literatura feminina mundial — um projeto que consumiu anos de madrugadas, leituras densas e uma busca incansável por vozes silenciadas — hoje repousa em alguma pasta de meu computador como um símbolo de um esforço que parece não ter lugar. O motivo? O abismo intransponível criado pelo elitismo acadêmico. 

É doloroso e, acima de tudo, hipócrita. Vejo essas "doutoras de letras" ocupando tribunas, enchendo a boca para defender as minorias, a democratização do saber e a inclusão de vozes periféricas. No entanto, na prática, o que vejo é um preconceito velado, uma barreira invisível erguida contra quem não possui o "canudo". Para esse grupo, o conhecimento não reside na profundidade da análise ou na raridade da descoberta, mas no carimbo de uma instituição. Elas ignoram que a sabedoria não aceita amarras e que a literatura, por essência, é livre.

Eu planejei cada detalhe: a publicação em livro físico, o registro na Biblioteca Nacional e a doação para os acervos das universidades. Queria que meu estudo servisse de degrau para futuros pesquisadores. Mas o descaso sistemático por eu não ser um "docente de carreira" drenou minha energia. Sinto que meu trabalho, por mais erudito que seja, seria recebido com um sorriso condescendente, como se fosse o passatempo de um amador, e não o fruto de uma investigação que, eu sei, supera em muito a tese de muitos doutores que apenas repetem conceitos prontos.

Percebo agora que, para esse sistema fechado, eu sou um intruso. O desprezo é silencioso, mas ensurdecedor. Se as próprias guardiãs da literatura não conseguem enxergar o valor de uma pesquisa independente e rigorosa, para que continuar? Transformar anos de vida em um ensaio que será entregue às traças em uma prateleira esquecida parece um desperdício de existência. O sentimento é de que todo o meu estudo foi uma perda de tempo diante de uma casta que prefere o diploma ao intelecto, e o título à verdade literária.

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