segunda-feira, 16 de março de 2026

Ecos do Deserto = 13. O Encontro com o Mercador de Sombras

Mustafá, o contador, limpou a garganta e prosseguiu:

Enquanto Aldhiyb ainda era um jovem marinheiro buscando carga para seu primeiro navio, ele avistou, em um beco onde a luz do sol parecia ter medo de entrar, uma loja sem teto nem paredes. Ali, sentado sobre um tapete de fios negros, estava Malik Al-Zill, o Mercador de Sombras. À sua frente, frascos de ônix guardavam silhuetas que se contorciam.

— "Aproxime-se, Al-Abiyad," sibilou Malik. "Vejo que tens um corpo forte, mas uma alma pesada. O que buscas? Riqueza? Poder? Ou queres te livrar do que te atrasa?"

Aldhiyb, curioso e ainda não escolado nas armadilhas dos gênios e feiticeiros, perguntou o preço de uma sombra que parecia a de um rei.

— "Não vendo sombras de outros," respondeu o Mercador. "Eu compro a tua. Dá-me a tua sombra e, em troca, dar-te-ei o Vento de Popa. Nunca mais teu navio ficará parado em calmaria, e chegarás sempre antes de qualquer rival."

O jovem Aldhiyb olhou para o chão. Sua sombra era longa e fiel. Malik explicou que um homem sem sombra não sente medo, não sente remorso e não deixa rastros para os inimigos. 

Parecia o negócio perfeito para um marinheiro ambicioso.

Mas, ao estender a mão para selar o pacto, Aldhiyb percebeu algo terrível: nos frascos de Malik, as sombras não estavam quietas; elas gritavam em silêncio. Elas eram as memórias e a humanidade daqueles que as venderam. 

Um homem sem sombra é um homem que não projeta nada no mundo; ele é um buraco vazio que caminha.

— "Guarda o teu vento, Mercador," disse Aldhiyb, recolhendo a mão. "Prefiro lutar contra a calmaria com meus próprios remos do que navegar rápido sendo apenas metade de um homem. Minha sombra pode ser escura, mas é ela que prova que eu estou sob a luz de Allah."

Furioso por perder a alma do marinheiro, Malik Al-Zill tentou roubar a sombra à força, lançando uma rede de trevas. Mas Aldhiyb, com a agilidade que aprendera com as cabras nas montanhas, saltou para onde o sol do meio-dia batia mais forte. A luz intensa do deserto queimou as mãos de fumaça do Mercador, que desapareceu em um redemoinho de poeira preta.

Dizem, que desde aquele dia, a sombra de Aldhiyb tornou-se mais nítida e escura que a de qualquer outro homem, e que foi esse peso que lhe deu a estabilidade para nunca virar seu navio nas tempestades que viriam.

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