quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Fábula da Onça e o Boi


Houve um tempo em que as matas eram governadas pelo respeito, mas a fome da Onça Pintada costumava falar mais alto que qualquer diplomacia. 

Certa tarde, nas bordas de um riacho, ela encontrou o Velho Boi, um animal imenso, de chifres pontiagudos e couraça de couro curtido pelo sol de muitos pastos.

A Onça, em vez de saltar, decidiu usar a astúcia. Ela sabia que aquele bicho era forte demais para um embate direto.

— Compadre Boi — disse ela, lambendo as patas — ando cansada de caçar. Que tal se fizéssemos um pacto de paz? Eu protejo o seu pasto de outros predadores, e o senhor, em troca, me guia até onde os bezerros mais jovens se escondem.

O Boi, que mastigava seu capim com uma calma de monge, nem sequer parou a ruminação. Olhou para a Onça com seus grandes olhos úmidos e respondeu:

— Dona Onça, a sua proposta parece generosa, mas o meu couro é grosso justamente porque aprendi a ler o brilho nos olhos de quem me cumprimenta.

A Onça insistiu:

— Ora, veja como estou magra! Se eu quisesse briga, já teria saltado. Vamos selar o acordo com um abraço?

O Boi, então, deu um passo à frente e baixou a cabeça, apontando seus chifres colossais para o peito da Onça.

— O abraço que a senhora quer é o da fome, e o que eu tenho para oferecer é o da defesa. Se a senhora está magra, é porque os outros animais também aprenderam que a paz de um predador dura apenas até a próxima digestão.

Percebendo que não venceria o Boi nem no cansaço e nem no papo, a Onça rosnou e desapareceu na mata fechada. O Boi voltou ao seu capim, sabendo que a vigilância é o preço da liberdade.

Moral: 
A natureza de quem trai não muda com belas palavras; a prudência é a melhor defesa contra falsas amizades.

Imagem: Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Viagem ao Passado


1. A Praça 

Antigamente, a praça principal não era apenas um endereço; era o coração pulsante da cidade, um palco onde a vida desfilava sem pressa. Hoje, olhar para trás é perceber que o tempo tinha outra textura, menos frenética e mais humana.

A praça era o destino inevitável. Cercada pelo coreto central, de onde a banda da cidade soprava marchinhas e valsas nas noites de domingo, ela exalava um perfume misto de pipoca doce e jasmim. O chão de mosaico, desenhado com ondas e formas geométricas, servia de pista para o "footing": os rapazes caminhavam em um sentido, as moças no outro, e os olhares se cruzavam no meio do caminho sob a vigilância discreta das matronas sentadas nos bancos de ferro.

Não havia Wi-Fi, mas a conexão era absoluta. As notícias chegavam pela boca do povo, entre um gole de café no bar da esquina e uma engraxada de sapatos. As crianças corriam em volta do chafariz, indiferentes ao mundo lá fora, enquanto os velhos senhores, com seus chapéus de feltro e rádios de pilha, discutiam política e o tempo como se fossem donos de ambos.

Ao cair da tarde, as luzes dos postes de ferro começavam a piscar, tingindo a praça de um dourado nostálgico. Era o sinal de que a missa das sete iria começar ou que o cinema de rua abriria suas portas pesadas. A praça era o nosso espaço comum, onde a riqueza e a pobreza se sentavam no mesmo banco para ver a lua nascer.

Hoje, as praças mudaram, mas a memória daqueles dias ainda resiste no balanço das árvores centenárias que, felizmente, continuam de pé. Recordar é, de certa forma, voltar para aquele banco de madeira e esperar o tempo passar, apenas para ver a vida acontecer.

2. As ruas

As ruas não eram apenas caminhos de passagem; eram extensões das nossas casas, territórios de liberdade moldados em terra batida ou paralelepípedos cinzentos. 

Hoje, quando olhamos para o asfalto liso e impessoal, é difícil não sentir saudade daquela textura irregular que ditava um ritmo de vida muito mais humano e vagaroso.

O silêncio das manhãs era raramente interrompido pelo motor de um carro antigo. Eram máquinas pesadas, de metal reluzente, algumas ainda com o charme rústico da partida na manivela, exigindo força e paciência do motorista. O movimento era tão escasso que o ronco de um motor ao longe servia de aviso: dava tempo de parar a brincadeira, ir para a calçada, acenar para o vizinho e só então retomar o que realmente importava.

E o que importava era o jogo. As calçadas eram arenas de grandes campeonatos de bolinha de gude. Meninos agachados, com o olhar atento e a pontaria calibrada, disputavam "caras" e "biroscas" como se fossem tesouros nacionais. Quando o sol baixava, o cenário mudava para o pega-pega, onde o fôlego parecia infinito e a rua inteira era o campo de batalha.

Mas o ápice da engenharia infantil eram os carrinhos de rolimã. Construídos com tábuas de construção e rolamentos conseguidos em oficinas mecânicas, eles transformavam qualquer ladeira em uma pista de Fórmula 1. O barulho do aço contra o paralelepípedo era o som da adrenalina. O freio? Muitas vezes era a sola do sapato ou, na pior das hipóteses, o próprio joelho. Os joelhos ralados eram medalhas de honra, lavados com água e sabão sob o olhar benevolente das mães que vigiavam da janela.

Havia uma segurança silenciosa que pairava no ar. As portas ficavam encostadas, e o perigo parecia algo distante, de outro mundo. 

À noite, o cenário pertencia aos casais. Caminhavam de braços dados, sem pressa, em um tempo onde a conversa não era interrompida por notificações de celular. O único brilho vinha dos postes amarelados e das estrelas, que pareciam muito mais nítidas sem a poluição luminosa das metrópoles modernas.

A rua antigamente era uma escola de convivência. Entre uma queda de rolimã e uma vitória na bolinha de gude, aprendíamos sobre o mundo, sobre os vizinhos e sobre nós mesmos.

3. Os Cafés

Entrar em um café era como atravessar um portal para um tempo onde a elegância e a palavra tinham um peso sagrado. Hoje, com a pressa dos copos descartáveis, olhar para trás revela o café não apenas como bebida, mas como a moldura social de uma época.

Os grandes estabelecimentos, como o histórico Café Girondino em São Paulo ou o centenário Café Lamas ou a Confeitaria Colombo no Rio, eram palcos de um desfile de distinção. De um lado, homens com ternos impecáveis e chapéus bem ajustados discutiam o destino do país e os rumos do comércio entre uma baforada de charuto e um gole de café preto. Do outro, mulheres com vestidos luxuosos e luvas de seda traziam a sofisticação das capitais europeias para o coração das cidades brasileiras.

Mas a magia acontecia na diversidade de seus cantos:

O Balcão: Onde o encontro era rápido, mas não menos intenso. Era o lugar do "café em pé", das notícias trocadas entre conhecidos e do barulho rítmico das xícaras de porcelana batendo no mármore.

As Mesas de Mármore: Onde o tempo parava. Amigos de longa data se reuniam em grupos ruidosos para celebrar a vida, debater literatura ou simplesmente deixar a tarde passar.

A Xícara como Elo: Seja o "café passado" no coador de pano ou o expresso nascente, a fumaça que subia da xícara era o sinal de que uma conversa importante estava prestes a começar.

Nesses locais, a arquitetura de azulejos antigos e balcões de madeira nobre contava histórias de décadas passadas. Era um território de segurança e convivência, onde a futilidade e o intelecto se sentavam à mesma mesa, unidos pelo aroma inconfundível do grão moído na hora.

Hoje, essas memórias resistem em locais que preservam a atmosfera de 1875 ou 1920, lembrando-nos de que a vida, assim como um bom café, deve ser apreciada em pequenos e pausados goles.


Ao fecharmos as cortinas desse cenário — entre os acordes do coreto, o estalo do rolimã no paralelepípedo e o tilintar das xícaras de porcelana —, percebemos que o que realmente saudamos não é apenas o passado, mas a profundidade das relações que ele abrigava.

A praça, a rua e o café formavam um santuário da presença humana. Eram tempos em que o "olho no olho" não era um esforço, mas a regra; onde a segurança vinha da vizinhança que se conhecia pelo nome e a elegância se manifestava tanto no corte de um terno quanto na gentileza de um "bom dia".

Hoje, embora o asfalto tenha coberto a terra e a pressa tenha silenciado o balcão, essas lembranças permanecem como bússolas. Elas nos recordam que, por trás de toda tecnologia e correria, ainda somos aqueles mesmos seres que buscam um banco de jardim para descansar e uma boa conversa para se sentir em casa. Que a nostalgia desses dias não seja um lamento, mas um convite para resgatarmos, sempre que possível, a doçura de viver um minuto por vez.

Sutil feito um hipopótamo numa loja de cristais


O nome dele era Gumercindo, mas os amigos o chamavam de "Guma Terremoto". Ele era o tipo de homem que, ao tentar dar um tapinha amigável nas costas de alguém, mandava o sujeito direto para a ortopedia. 

Quando Guma entrou na "Cristais & Delicadezas", a loja mais luxuosa da cidade, o ar-condicionado pareceu soluçar de pavor.

Guma estava ali para comprar um presente de bodas para a esposa. O problema é que ele tinha a envergadura de um guarda-roupa de carvalho e a graciosidade de um trator de esteira.

— Bom dia! — trovejou Guma. O som fez os pingentes de um lustre de cristal de rocha entrarem em ressonância magnética.

A vendedora, uma moça pálida chamada Silvinha, aproximou-se deslizando, como se temesse que qualquer vibração extra causasse uma catástrofe.

— Pois não, senhor. Posso ajudar? — sussurrou ela, tentando induzi-lo a baixar o volume.

— Quero algo fino! Daqueles que a gente olha e tem medo de respirar perto! — disse ele, gesticulando com braços que pareciam toras de madeira. 

Nesse movimento, o cotovelo de Guma passou a milímetros de uma pirâmide de taças de champanhe. Silvinha prendeu o fôlego por tanto tempo que ficou roxa.

Guma decidiu caminhar pelo corredor central. O corredor tinha exatamente a largura de Guma, se ele prendesse a respiração. Mas Guma não prendia a respiração; ele expandia o tórax.

— Olha só essa jarra! — gritou ele, girando o corpo para a direita. A aba do seu paletó, pesada com um molho de chaves no bolso, deu um "peteleco" num cisne de vidro soprado. O cisne oscilou. Silvinha deu um salto digno de uma goleira de seleção e amparou a ave de cristal a poucos centímetros do chão.

— Cuidado, senhor! São peças de 1920! — implorou ela, suando frio.

— Bobagem, menina! Eu sou sutil. Meu apelido na escola era "Beija-flor" — mentiu ele, enquanto tentava coçar as costas e, no processo, derrubava uma pequena placa de "Não Toque" com o ombro.

O desastre final aconteceu quando Guma avistou uma fruteira de cristal tcheco no alto de uma prateleira.

— É essa! A patroa vai adorar! — Ele se esticou todo. O sapato tamanho 44 pisou em falso, e o peso de seus cem quilos deslocou o centro de gravidade da loja. Para não cair, Guma se agarrou a uma estante. A estante rangeu. Silvinha fechou os olhos e começou a rezar o "Pai Nosso".

Por um milagre físico que os cientistas ainda estudam, nada quebrou. Mas, ao tentar se recuperar, Guma soltou um espirro. Um daqueles espirros que abrem buracos na camada de ozônio.

O impacto sonoro foi tão grande que uma taça de licor na vitrine simplesmente desistiu da vida e trincou sozinha.

— Viu só? — disse Guma, limpando o nariz no lenço imenso. — Eu disse que era sutil. Nem fiz barulho ao cair!

Silvinha, tremendo, embrulhou a fruteira o mais rápido que pôde. Ela só queria que o "Beija-flor" batesse asas antes que a loja virasse areia de construção. Guma saiu balançando o pacote, batendo a porta de vidro com tanta força que o letreiro de "Aberto" caiu no chão.

Do lado de fora, Gumercindo, sutil feito um hipopótamo numa loja de cristais, sorriu consigo mesmo:

— Finesse é tudo, meu caro Gumercindo. Finesse é tudo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Silêncio Ensurdecedor da Solidão

Caminha a passo bem lento,
na estrada que a vida armou;
Hoje está no esquecimento
de quem ele tanto amou.
(José Feldman)

Em um mundo que valoriza a velocidade, a eficiência e a produtividade, os idosos que não possuem um diploma de graduação universitária são frequentemente relegados ao esquecimento. São como folhas secas levadas pelo vento, esquecidas em um canto, sem valor aparente. A vida solitária e desanimadora desses indivíduos é um grito silencioso que ecoa nas ruas vazias, um lembrete cruel de que a sociedade pode ser cruel e injusta.

Eles se sentem desvalorizados, desprezados e rejeitados, como se suas realizações e experiências não tivessem importância. A falta de um diploma é como uma marca de inferioridade, um estigma que os impede de serem vistos como seres capazes e valiosos. Eles se fecham em casa, sem ânimo para sair, sem vontade de se arrumar, sem esperança de serem vistos e ouvidos.

E assim, os idosos se sentem cada vez mais isolados, como se fossem invisíveis aos olhos da sociedade. Eles começam a duvidar de si mesmos, a questionar sua própria capacidade de raciocínio, de julgamento, de decisão. Eles se sentem como se estivessem perdendo a noção de quem são, de o que são capazes.

A falta de reconhecimento e valorização é como um veneno lento, que se infiltra em suas mentes e corrói sua autoestima. Eles começam a acreditar que são realmente inferiores, que não são capazes de contribuir para a sociedade, que não têm nada de valor a oferecer.

E assim, eles se fecham ainda mais, se escondem do mundo, se protegem de mais rejeição e desvalorização. Eles se sentem como párias, como se estivessem à margem da sociedade, sem direito a voz, sem direito a serem ouvidos.

A solidão se torna uma companheira constante, uma sombra que os segue a todos os lugares. Eles se sentem como se estivessem morrendo por dentro, como se estivessem perdendo a vontade de viver.

A casa, que antes era um lar, se transforma em uma prisão, um lugar de isolamento e solidão. As coisas que antes traziam alegria e propósito agora são apenas objetos sem sentido, lembranças de uma vida que não foi vivida. A bagunça e a desordem se acumulam, refletindo a desordem interior, a sensação de vazio e inutilidade.

Mas, é importante lembrar que essas pessoas não são apenas vítimas da sociedade. Elas são seres humanos, com histórias, experiências e sabedoria para compartilhar. Elas são capazes de grandes realizações, de inspirar e motivar outros, de fazer a diferença no mundo.

O que é necessário é que as pessoas as enxerguem, as ouçam e as valorizem. É necessário que as pessoas entendam que um diploma não é o único indicador de valor e capacidade. É necessário que as pessoas reconheçam a dedicação, o esforço e a perseverança dessas pessoas, que muitas vezes trabalharam arduamente para se sustentar e para contribuir para a sociedade.

É necessário que as pessoas sejam empáticas, que se coloquem no lugar dessas pessoas e entendam o que elas estão passando. É necessário que as pessoas sejam gentis, que ofereçam um sorriso, um abraço, um ouvido atento.

Não é necessário ser um especialista para fazer a diferença. Basta ser humano, basta ser presente. Basta dizer "eu estou aqui", "eu te vejo", "eu te valorizo".

A vida é curta, e o tempo é precioso. Não se deve desperdiçá-la com julgamentos e preconceitos. Deve-se aproveitar cada momento para fazer a diferença, para tocar vidas, para inspirar e motivar.

É só olhar para os idosos com novos olhos, com respeito e admiração. Ouvir suas histórias, aprender com suas experiências. Valorizar suas realizações, celebrar suas vitórias, porque, no final, não é o diploma que define uma pessoa, é o seu coração, é a sua alma, é a sua capacidade de amar e ser amado. O que vale é fazer a diferença, fazer com que esses idosos se sintam vistos, ouvidos e valorizados. Fazer com que eles se sintam vivos novamente.

E, quem sabe, talvez um dia possam sair de casa, com a cabeça erguida, prontos para mostrar ao mundo que eles são mais do que um diploma, são homens de experiência, de sabedoria, e, acima de tudo, de valor. 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Debate na Casa de Luz


Era uma tarde ensolarada em Arles, as cores vivas do Provence que pareciam dançar nas paletas dos três mestres. Van Gogh, Gauguin e Monet estavam reunidos em uma pequena casa onde as paredes estavam adornadas com suas obras. A conversa logo se transformou em um acalorado debate.

Van Gogh: (gesticulando para o seu quadro) Olhem para isso! A energia da pintura é palpável. Cada pincelada expressa a turbulência da minha alma. É como se cada estrela estivesse viva, pulsando com a luz.

Gauguin: (rindo) Ah, Vincent, não me diga que você ainda acredita que pintar a realidade é o que a arte deveria ser! Sua paisagem é como um grito, mas eu prefiro a suavidade e a simplicidade da vida. Olhem para a minha tela! (aponta para sua obra) Aqui, eu capturei a essência das coisas — um mundo mais espiritual e menos caótico.

Monet: (com um sorriso irônico) Vocês dois sempre emaranhados nos seus próprios demônios! Eu busco a beleza das coisas efêmeras. A luz e a cor que mudam constantemente. Minha série de Nenúfares é pura Harmonia — um jogo da natureza, não um grito desesperado.

Van Gogh: (frustrado) Harmonia? Claude, sua arte parece uma ilusão! Você está tão perdido na busca da luz que se esquece da luta real dentro de nós. Minhas galas de girassóis são um reflexo da paixão! 

Gauguin: (levantando a voz) A luta não é tudo, Vincent! Existe uma sabedoria na simplicidade. A natureza não é apenas um campo de batalha ou um lugar de dor. É onde encontramos a paz. Os meus quadros buscam provocar um pensamento! Olhem para este! (aponta para seu trabalho) Há uma fantasia que revela a verdade, algo que fatos não podem capturar.

Monet: (sorrindo) E essa fantasia muitas vezes ofusca a realidade! Não podemos esquecer que a natureza é uma dançarina, uma musa que está sempre em transformação. (faz uma pausa) Vocês dois falam de alma e luta, mas eu vejo um jardim.

Van Gogh: Um jardim? Claude, existem jardins imaginários e jardins reais. O que eu vejo nas flores é a fragilidade da vida! Cada girassol em minha tela é um símbolo da luta contra a escuridão.

Gauguin: (interrompendo) E o que é a escuridão sem a luz? Uma obra de arte deve provocar reflexão! Estar em harmonia com o espírito da coisa é mais importante do que a técnica. Você pode ter traços intensos, mas sem compreensão, é apenas ruído.

Monet: (pensando) A técnica é a ponte entre a visão e a realidade! Se você está preocupado só com a mensagem, a pintura se torna um panfleto, não arte! (aponta para os quadros) O que eu desejo é capturar o instante — a beleza do agora.

Van Gogh: (com um sorriso triste) Então, somos todos diferentes, não somos? Vocês preferem sussurrar, enquanto eu grito com cada pincelada. Mas isso é o que torna a arte tão rica e variável! 

Gauguin: E isso é o que devemos celebrar! Cada um de nós tem um olhar único. A arte é o reflexo da nossa experiência. 

Monet: Concordo! Ao final, é a paixão que nos une, mesmo que as nossas paletas sejam diferentes.

E assim, os três mestres continuaram a discutir, rindo e debatendo, cada um defendendo seu mundo particular. O sol se pôs lentamente, lançando um brilho dourado sobre seus quadros, que pareciam, cada um à sua maneira, perfeitamente vivos.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

As Sombras da Solidão

 

(a crônica abaixo, infelizmente, são fatos comuns hoje em dia, alguns elementos a mais fazem parte desta história, mas boa parte deles fazem parte do cotidiano de muitos outros idosos)

Seu nome é Lúcio, um homem que aos 71 anos de idade, vive sozinho em uma pequena casa no interior do Paraná. Para muitos, sua vida pode parecer simples ou até mesmo pacata. Mas, para ele, cada dia é uma batalha silenciosa contra a solidão. Durante mais de uma década, sua única companheira tem sido Sol, uma cadela, que, com seu olhar amoroso e sua presença constante, é a única luz nesta escuridão.

Dezembro chega com a sua fanfarra de luzes cintilantes e sorrisos forjados, uma estação de rádio que só toca a melodia da sua solidão. A proximidade das festas de final de ano não traz alegria; traz uma maré crescente de desânimo e uma depressão silenciosa que se senta com ele à mesa de jantar vazia. Uma onda de melancolia toma conta. É uma época em que todos parecem se reunir; os sorrisos, as luzes, os abraços calorosos. Mas ali, dentro das quatro paredes de sua casa, a realidade é bem diferente. As ruas decoradas e cheias de vida contrastam bruscamente com o vazio do seu lar. Seus familiares, que vivem longe em outro estado, nunca vêm para o visitar. Suas desculpas são sempre as mesmas: “Não posso agora; estou ocupado”, “O trânsito é terrível nessa época”, “É muito longe”. A verdade, que ele já conhece, é que não há espaço para ele na vida deles.

Desde a morte de sua mãe, sete anos atrás, sentiu como se um pano escuro tivesse sido puxado sobre sua existência. Ela era seu porto seguro, a única que o entendia sem precisar de palavras. Com a sua partida, um pedaço dele se foi, e com ele, a conexão com o resto da família. Ele só queria um toque humano, uma palavra amiga, alguém que dissesse que se importava. Mas, em vez disso, o eco do silêncio se tornou seu único familiar.

O casamento com Clara não sobreviveu ao peso das expectativas e dos sonhos desfeitos. Quando conversava com ela, sentia o abismo entre eles, maior que qualquer distância física. Ela fala com um tom sereno, mas em suas palavras há uma nota de superioridade que o fere, quase como se ele fosse um projeto inacabado em comparação aos seus sucessos. Por Lúcio não ter um diploma universitário, a seus olhos era apenas um homem que fracassou em vários aspectos da vida. Ela tem o seu diploma universitário, a sua carreira, a sua vida estruturada, e não perde a oportunidade de lhe fazer sentir a sua falta de instrução. As conversas são um exercício de paciência; ela fala sobre as conquistas e seu trabalho, e ele escuta, tentando encontrar sua voz entre as lembranças que a cercam. Em dias como esses, a saudade se mistura com um profundo desânimo. É uma dança estranha: enquanto ela compartilha sua vida, ele é um espectador, preso em polaroides de um passado que não consegue mudar. Apesar disso, se mantém conectados, a sua conexão distante com o resto do mundo. Neste momento, ela é a ponte que liga seu presente ao passado, embora ele saiba que essa ponte balança sob o peso de suas frustrações.

Sol, por outro lado, não se importa com diplomas ou conquistas. Para ela, ele é suficiente. Quando olha nos olhos dela, percebe que, apesar da dor e da solidão, é amado de uma maneira pura e verdadeira. Ela não sabe das cicatrizes que ele carrega, dos fantasmas que habitam a sombra de sua vida. Para ela, não importa se o Natal não terá presentes, árvores decoradas ou ceias fartas. O que importa é estarem juntos, no calor do seu pequeno lar, onde ele faz o melhor que pode para garantir que ela se sinta amada tanto quanto ele sente.

Refletindo sobre todos esses anos, recorda de um tempo em que também foi pai. Sua filha, que não viveu o suficiente para conhecer o mundo, deixou uma cicatriz que nunca se apagará. Ela foi brutalmente levada dele com apenas alguns meses de vida, O destino, porém, tinha planos cruéis. A sua menina, a sua preciosa filha, foi-lhe tirada de forma brutal, assassinada com apenas alguns meses de vida. Suas esperanças, sonhos e anseios se desfizeram em um instante, como se um vendaval tivesse passado e levado tudo que ele mais amava. A dor foi insuportável. A mãe da menina, a mulher que ele amava, afundou na escuridão da sua própria dor. A perda dela foi o último golpe, e ela decidiu que não queria mais viver, preferindo a escuridão eterna à dor insuportável da realidade. Enquanto a via partir, entendeu que a vida era feita de uma montanha-russa de alegrias e tristezas, mas ele parecia viver só a parte mais pesada da queda, deixando-o num desespero que ainda hoje molda o seu ser. Esse capítulo da sua vida é uma ferida que nunca cicatriza, um lembrete constante da fragilidade da felicidade.

Agora, aqui está, um homem de 71 anos que vive cercado por sombras do passado. À medida que o Natal se aproxima, as memórias se tornam mais intensas: o cheiro da comida que sua mãe preparava, os cafés à tarde, as brincadeiras que ecoavam pela casa, o calor dos abraços de sua esposa. Essas lembranças são tanto o seu consolo quanto a sua condenação. O tempo não apagou a dor, ele apenas a tornou parte de quem é.

Nesta véspera de Natal, enquanto Sol se aconchega ao seu lado no sofá, sente a solidão se instalar ao seu redor. Neste momento, não tem presentes para dar. Não há árvores cheias de enfeites, nem laços coloridos. Passarão as festas juntos, no silêncio da sua casa, observando o mundo lá fora celebrar uma união que não lhes pertence. Ao invés disso, o que há é a promessa de mais um dia juntos, uma certeza que, apesar de tudo, traz um leve sorriso aos seus lábios. Ao olhar pela janela, as luzes piscantes da cidade não lhe atraem mais. Em vez de lembrar do que perdeu, sente uma alegria ainda que transitória de estar com seu amor maior, sua cadela Sol.

Percebe que, mesmo sem a presença da família, tem Sol, sua única família presente, verdadeira, que sempre estará ao seu lado, com seu amor incondicional. Ela é a única razão pela qual ainda levanta da cama todos os dias. Ela é o seu raio de sol que lhe aquece as manhãs.

Eles, na certa, se aconchegarão em um canto do sofá, com um filme antigo na televisão e o coração esperançoso, mesmo que ligeiramente quebrado. Porque a vida, com todas as suas durezas, ainda tem seus pequenos momentos de alegria. E enquanto Sol estiver ali, ele não estará completamente sozinho.

Ah, como gostaria de viver por um momento, a festa que tanto anseia. Mas o que ele tem é uma xícara de chá e a alegria simples que Sol traz para os seus dias.

Afinal, Lúcio e Sol são uma dupla imbatível, navegando em mares de solidão. E quando der meia-noite na certa ficarão deitados lado a lado como dois seres que se amam muito e esperando o sono os levar a um mundo de sonhos, de felicidade, de amor, de amizade, de espíritos livres.

No final, o que mais poderia desejar além disso? Um amor simples, uma amizade leal, e a esperança de que um dia, as sombras do passado possam dar lugar a dias mais iluminados. Para ele, isso deve ser suficiente.
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os nomes foram modificados para preservar suas identidades
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), . Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fonte: José Feldman. Caleidoscópio da Vida. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2025.
Imagem obtida com Microsoft Bing

sábado, 6 de dezembro de 2025

O Crepúsculo dos Justos


A cidade roncava lá fora, um organismo indiferente feito de buzinas e pressa. Dentro das paredes que um dia abrigaram risadas fartas e jantares de fim de semana, agora reinava um silêncio pesado, quebrado apenas pelo tique-taque melancólico de um relógio de pêndulo. Ali vivia Horácio, um homem que a vida havia dobrado, mas não quebrado — pelo menos não até agora.

Horácio era a personificação da generosidade. Um homem cuja biografia poderia ser escrita com os gestos de bondade que dedicou a todos ao seu redor. Divorciado há uma década, ele investiu o restante de suas energias em amigos que ele considerava sua família estendida. Ele era o ombro para chorar, o caixa para emprestar dinheiro sem juros e o motorista do dia e da noite. Dedicação incondicional. Amor em sua forma mais pura e desinteressada.

Mas o tempo é um cobrador impiedoso. A idade é implacável, o corpo de Horácio começou a falhar antes do espírito. O caminhar virou arrastar, a memória, uma peneira fina onde os nomes recentes se perdiam, e a independência, uma miragem distante. Ele precisava de cuidados, de presença, de uma mão que o guiasse no labirinto da velhice frágil.

Foi então que a verdadeira face da "amizade" começou a se revelar, não em um ato de traição, mas no silêncio ensurdecedor da omissão.

A reunião aconteceu na sala de estar, a mesma sala onde, anos atrás, eles brindavam a aniversários e conquistas. Estavam lá Mário, o empresário a quem Horácio tirou do buraco da falência; Lúcia, cuja faculdade foi paga com um empréstimo que jamais foi cobrado; e Beto, o afilhado que Horácio ensinou a andar de bicicleta e a viver com dignidade.

A conversa começou com eufemismos, palavras polidas que tentavam mascarar a crueza do abandono.

"Horácio, pensamos muito em você", começou Mário, ajustando os óculos caros. "Você precisa de um lugar com mais estrutura, com médicos 24 horas por dia."

"Sim, um lar de idosos", completou Lúcia, olhando para as próprias unhas. "Lá tem atividades, outros velhinhos para conversar... é melhor para o seu astral."

"É o melhor para você, padrinho", Beto tentou, evitando o olhar mareado do velho.

Eles falavam de "lares" e "clínicas de repouso" com a mesma naturalidade que se fala de um resort de férias. O eufemismo era a cortina de fumaça para a verdade brutal: eles não queriam a responsabilidade. A gratidão tinha prazo de validade. As promessas de "para sempre amigos" se dissolviam diante da perspectiva de trocar fraldas, agendar médicos ou, pior, abrir mão de uma hora de sua vida ocupada para simplesmente fazer companhia a Horácio.

Horácio não discutiu. Ele apenas ouviu. E em cada palavra vazia, sentiu o peso da rejeição cair sobre seus ombros já curvados. O asilo não era uma solução de cuidado; era uma solução de descarte.

Naquela noite, sozinho em seu quarto, Horácio encarou o espelho. Não viu o homem generoso que dedicou sua vida aos outros, viu apenas um estorvo, uma bagagem que seus amigos — sua suposta família — estavam ansiosos para despachar.

O descaso é uma forma de violência silenciosa, um veneno de ação lenta. A atitude deles não apenas minou sua saúde física, mas aniquilou seu espírito. A autoestima de Horácio, que sempre se baseou em seu valor como pilar de apoio para os outros, desabou. Ele se sentiu o homem mais solitário e mal-amado do mundo.

A rejeição doeu mais do que a artrite nos joelhos ou a falha da memória. Doeu na alma. A ingratidão daqueles a quem ele amou incondicionalmente transformou seus últimos anos em um inverno perpétuo.

Ele não foi para um asilo. Foi para um depósito. Um depósito de memórias, onde o amor que ele distribuiu jazia esquecido, e onde a única companhia era a sombra da solidão, tecida pela indiferença daqueles que um dia chamou de amigos. 

A crônica da sua vida terminou não com um rugido, mas com o sussurro triste de um adeus silencioso a um mundo que ele amou, mas que se recusou a amá-lo de volta quando ele mais precisava.

Os Contadores de Histórias Indígenas

Nota: Apesar de Sherman Alexie e Louise Erdrich estarem vivos, Zitkala-Sa morreu em 1938. Ao final do texto a importância de cada um deles p...