terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 5. O Tapete do Destino


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), almas curiosas. Aproximem-se, pois o fio que vou tecer agora é feito de astúcia e de uma coragem que nem as tempestades de areia podem apagar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes contarei como a mente de uma mulher pode ser mais afiada que a espada de um mameluco.

"Bismillah" (Em nome de Deus), comecemos a urdir esta trama.

Nas montanhas do Atlas, vivia uma jovem chamada Layla, famosa por seus tapetes que pareciam capturar as cores do pôr do sol. 

Um dia, um adivinho sombrio passou por sua aldeia e, ao olhar para a palma de sua mão, sentenciou: "Maktub (Está escrito): Antes que a próxima lua cheia se ponha, a pobreza baterá à sua porta e levará sua última gota de esperança."

Layla sentiu o frio do medo, mas não se curvou. 

"Ya Rabb" (Ó Senhor), pensou ela, "se o destino é um tecido, eu sou aquela que segura a agulha."

Ela não parou de trabalhar. Em vez de lamentar, Layla começou a tecer um tapete diferente de tudo o que já fora visto. Era um tapete de "Kohl" (negro profundo), mas com fios de seda que brilhavam como prata sob a luz da lua. Nele, ela não desenhou flores ou figuras geométricas, mas sim o mapa das estrelas e os segredos do vento.

Quando a lua cheia chegou, o Destino, personificado na figura de um cobrador implacável enviado por um mercador ganancioso, bateu à sua porta. 

"Vim levar seus teares e sua casa por dívidas que seu pai deixou", disse o homem com voz de pedra.

Layla, com um sorriso calmo, disse: 

"Ahlan wa Sahlan" (Seja bem-vindo). "Antes de levar tudo, peço que avalie esta peça única. É o Tapete do Tempo. Dizem que quem pisa sobre ele pode ver o futuro, mas apenas se o seu coração for puro."

O mercador, movido pela ganância e pela curiosidade, pisou no tapete. Layla, com sua habilidade de tecelã, havia criado uma ilusão de ótica com os fios de prata; ao se mover sobre eles, o mercador sentiu como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés, revelando um abismo de estrelas. Assustado e acreditando estar diante de uma magia poderosa que punia os gananciosos, ele caiu de joelhos.

"Perdoe-me!" gritou o homem. "Afwan" (perdão)! "Fique com tudo, apenas me deixe sair deste feitiço!"

Layla permitiu que ele fugisse. Ela não havia mudado o que estava escrito nas estrelas, mas mudou a forma como o mundo a via. A pobreza nunca entrou naquela casa, pois sua fama de "Sábia dos Tapetes" atraiu viajantes de todo o "Magrebe" (Ocidente Árabe), que pagavam fortunas para ouvir seus conselhos enquanto ela tecia.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a inteligência é o presente mais precioso dado aos mortais. O destino pode escrever a primeira linha, mas somos nós que terminamos a estrofe.

"Shukran" (Obrigado) por me ouvirem sob este manto de estrelas. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

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