quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ecos do Deserto = 2. A Força do Amor


"Salaam’aleikum" (
Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra.

"Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece.

Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. 

No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um "sihr" (feitiço) cruel.

Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno.

Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". 

O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo.

Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão.

Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. 

"Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!"

Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. 

"Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu".

"Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

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